Comentando discografias: Metallica – Parte 5: Suicídio e redenção

Os anos 90 trouxeram tantas mudanças drásticas para o rock, que os anos 2000 se iniciaram com uma vontade de reviver os velhos tempos. Com isso, bandas ressurgiram das cinzas com suas formações clássicas e um som nostálgico, mas renovado e estouraram como não faziam desde os anos 80. No entanto, se os anos 00 começaram com uma nova consagração para bandas veteranas e o nascimento de tantas outras bandas pesadas, para o Metallica, foi o fundo do poço.

A popularidade da banda foi para o espaço com diversas polêmicas e os integrantes sofreram com problemas pessoais e entre si. O resultado de tudo isso foi um álbum igualmente problemático e caótico, que refletia uma banda que estava se auto-destruindo. Era hora de juntar os pedaços, resgatar o passado e aprender com o presente… para reescrever o futuro.

Suicídio…

St. Anger (2003)

Em meio a toda uma bagunça sem precedentes, o Metallica anunciou seu novo álbum de estúdio. Segundo Lars, o lado pop abraçado em Load/ReLoad seria deixado de lado e a banda voltaria a fazer um som mais pesado e cru, “como nos velhos tempos”, dando uma certa esperança para os fãs. Claro que ninguém esperava o que acabou sendo St. Anger. De fato, ele é absurdamente mais pesado que qualquer coisa que a banda tenha feito naqueles últimos anos.

Esse peso, entretanto, é reflexo dos vários baques que o Metallica e sua reputação sofreram nos anos que antecederam o álbum e na sua composição. Todo o acúmulo das atitudes equivocadas, a polêmica da pirataria, a saída definitiva – e já esperada há anos, dada a forma como ele era tratado – de Jason Newsted e o tortuoso processo de criação deste oitavo álbum de estúdio, que envolveu James se internando na reabilitação e incontáveis discussões, brigas realmente tensas e até um terapeuta (tudo isso devidamente registrado no sensacional documentário “Some Kind of Monster”) tiveram seu impacto.

Com isso, o prometido som pesado do álbum é na verdade uma barulheira infernal, um amontoado de sons incômodos em músicas que apesar de na sua maioria, terem letras agressivas e com algo a dizer, eram terríveis de se ouvir. No entanto, essa experiência não vem de imediato, já que “Frantic” (com o patético verso, “Frantic-tic-tic-tic-tic-tic-tac”) e a faixa-título (cujo refrão parece resumir o que um sentia do outro na banda naquele momento – “I’m madly anger with you!”) só dão uma prévia do que esperar de St. Anger.

Aqui, Lars parece ter abandonado a bateria pra bater em latões (uma piada que jamais abandonaria o Metallica, mesmo depois de voltarem a boa forma), Kirk desaparece em meio a bagunça, já que a decisão foi limar todo e qualquer solo das músicas – um momento especialmente memorável, registrado no documentário – Bob Rock faz as linhas de baixo, já que a banda não teve tempo – nem disposição – de procurar um novo baixista e James agora se encontrava sóbrio, mas ainda atormentado e transparece isso em um vocal agoniante, doloroso (para ele e para nós, conste-se) e sem qualquer preocupação de soar agradável.

No desenrolar do álbum, mesmo já sabendo tudo o que se passou para o álbum existir, fica realmente difícil de acreditar que uma banda do porte do Metallica, por maiores que tenham sido os absurdos que já tenham feito, tiveram a coragem de lançar algo como St. Anger no mercado. Quando se chega em momentos realmente asquerosos como “Some Kind of Monster” (que parece cover de uma das irrelevantes bandas de nu metal surgidas na época), nos gritos inexplicáveis no meio de “Dirty Window” (com tem uma letra desafiadora – “Eu vejo meu reflexo na janela/Parece diferente, tão diferente do que você vê”) ou na vergonhosa “Purify”, dá até para entender porque tanta gente abandonou de vez a banda ali.

E não é como se a falta de solos impactasse na duração das músicas. Algumas chegam a quase 9 minutos de berros, latões e agonia. Aliás, se no álbum de estreia a falta de baladas fazia o quarteto soar mais destruidor e poderoso, aqui, o fato de não haver um único momento calmo, torna o Metallica uma banda atormentada, como aquela pessoa que desconta toda a raiva que está sentindo sem que você nem tenha falado nada para isso. Prova disso são os momentos finais da última música, “All Within My Hands”, em que James começa a berrar de forma desesperada “Kill! Kill! Kill!” e o ouvinte se pergunta, igualmente desesperado, o que ele fez para ouvir tudo aquilo.

Em St. Anger, o Metallica mostra exatamente no que todo o sucesso e o dinheiro havia transformado eles: eram pessoas atormentadas, desunidas e cheias de excessos. Cada música do álbum parece derrubar um pedaço deles e no final, o que sobra é um estranho e deprimente arremedo de banda de rock. Como consequência, houveram shows cancelados, desgaste físico e emocional e uma turnê mundial anormalmente curta. Era hora de parar de simplesmente seguir em frente, juntar os pedaços e seguir um novo caminho. E este, depois de tantos anos, finalmente teria algo de familiar…

Nota: 2 (só pela capa, concebida pelo ilustrador Pushead, que é fantástica, uma pena ter sido usada num álbum como esse)
Preste atenção em: Na arte da capa. E em “Frantic”, que é a primeira música, só pra dizer que você chegou a ouvir alguma coisa do álbum.
Para pular depois da primeira ouvida: Depois que se conhece a carreira do Metallica de ponta a ponta, a melhor coisa a se fazer é esquecer que St. Anger existiu.

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… E redenção

Death Magnetic (2008)

A banda e sua reputação estavam no limbo após St. Anger e o processo de ressurgimento se daria lentamente. Em 2005, tiraram um ano de necessárias férias, com cada integrante indo para o seu lado e curtindo a própria vida. No ano seguinte, a turnê “Escape From the Studio 06” ajudou a definir o que seria o álbum seguinte, com a banda tocando sua obra-prima, Master of Puppets, na íntegra, num setlist com foco nos clássicos. O Metallica estava nostálgico, retornando as raízes ao vivo. Agora faltava fazer isso em estúdio.

Por motivos óbvios, dispensaram o produtor Bob Rock, que pode não ter sido o único responsável por todas as mudanças vindas desde a década de 90, mas era uma figura que, pelo bem ou pelo mal, já havia feito o suficiente pela banda. No seu lugar entrou Rick Rubin, responsável pelos melhores álbuns de bandas como Slayer, Beastie Boys, System of a Down e pelo ressurgimento de artistas como Johnny Cash e Neil Diamond. Um produtor que fazia velhos nomes ressurgirem e responsável por álbuns essenciais de grandes bandas. Era a união perfeita.

Com os problemas internos resolvidos, os demônios interiores controlados e a total integração do novo baixista, Robert Trujillo (Suicidal Tendencies, Ozzy Osbourne) na banda, o Metallica estava pronto para retornar de verdade às suas raízes. Mas ouvindo Death Magnetic, a verdade é que eles fizeram bem mais que isso. Chega a ser curioso ver como eles conseguiram unir com perfeição algumas coisas que pareciam completamente opostas. Aqui, a simplicidade dos riffs e os refrões grudentos do Black Album se encontram com a complexidade na construção das músicas de … And Justice for All e ainda há espaço para algo genuinamente thrash como não faziam desde o começo dos anos 80.

Algumas coisas foram para manter o saudosismo, como o retorno do logo clássico (finalmente) e da velha fórmula do tracklist, com a primeira música começando lenta e estourando numa série de riffs incontroláveis com uma letra cantada como um soco no estômago por James (a espetacular “That Was Just Your Life”), tem a balada que termina num longo solo (“The Day That Never Comes”, a melhor música do Metallica desde “The Unforgiven”, com uma estrutura que lembra muito a imortal “One”) e até a primeira música instrumental desde 1988 (“Suicide and Redemption”).

É também o retorno de Kirk Hammett como guitarrista solo da banda. Ele estava no último álbum, ainda que ninguém tenha percebido, mas aqui no entanto, não falta espaço para brilhar, com longos solos em todas as músicas. Trujillo participa ativamente de um álbum pela primeira vez também, mostrando que apesar da presença de palco de Jason fazer diferença ao vivo, no estúdio a escolha não poderia ter sido mais perfeita. James também encontra um bom ponto para manter sua voz, que não lembra nem de longe a do rapaz dos primeiros álbuns, mas soa rasgada, amadurecida e furiosa da forma que deve soar.

O novo trabalho também é o lugar em que se encontra uma das melhores músicas que o Metallica já fez até hoje: “All Nightmare Long” é o tipo de música que te pega pelo colarinho quando começa e só te solta depois de 8 minutos simplesmente hipnotizantes, com dois solos inacreditáveis e com uma complexidade que todo mundo achava que a banda não era mais capaz de ter. Como se não bastasse, é difícil não notar algumas auto-referências em Death Magnetic, como na frase que abre a excepcional “Broken, Beat and Scarred” (“Você se levanta/você cai/você está caído e se levanta novamente/O que não te mata te torna mais forte”) ou no nome da música instrumental.

Mesmo num álbum que pretende voltar aos velhos tempos, encontram espaços para experimentações: é o caso da pretensiosa “The Unforgiven III” (que seria muito mais aceita se não tivesse esse nome, ainda que ele faça sentido, já que se trata de auto-perdão como as outras duas), que começa com um inesperado piano e se revela uma das mais fantásticas composições da banda (“Como posso culpar você/Quando sou eu quem não consigo perdoar?”) e de ótimas músicas como “The Judas Kiss” e “The End of the Line”, que não lembram nada que a banda tenha feito antes, ainda que contenham todo o peso e fúria que ela sempre teve.

Como a ideia não era tentar replicar Master of Puppets, claro que o álbum não é perfeito. Apesar do retorno do som pesado e rápido da banda soar como algo genuíno, a duração das músicas parece algo proposital, como se eles quisessem reforçar ainda mais um ponto – apesar de nenhum minuto soar desperdiçado em quase todas as músicas – e a já citada “Suicide and Redemption”, apesar de ter momentos realmente inspirados, ganha uma artificialidade infeliz ao se estender por absurdos e desnecessários dez minutos. Mas é um momento isolado num álbum excelente.

Ao terminar com “My Apocalypse”, eles ainda deixam para os fãs da velha guarda uma música genuinamente thrash criada em 2008 pela banda que ajudou o estilo a se formar no começo dos anos 80 e que não fazia algo do tipo desde aquela época. Um dos melhores e mais nostálgicos momentos do álbum, terminando ele de forma triunfante, para fazer qualquer fã respirar aliviado: o Metallica estava oficialmente vivo.

Quando se olha para a carreira da banda como um todo, Death Magnetic surge exatamente como os três álbuns anteriores deveriam ter surgido, mas falharam: um trabalho criado pelos quatro jovens mal-encarados de San Francisco, agora completamente amadurecidos em aspectos pessoais e musicais. É a continuação natural da carreira do Metallica, sem desvios estranhos, maquiagens e músicas country.

Se a consequência de St. Anger foi o limbo, a de Death Magnetic foi um sucesso ainda maior que o da época do Black Album: a turnê do álbum é a 17ª mais lucrativa de todos os tempos, o álbum foi um sucesso arrasador e o mundo do heavy metal passou a ver o Metallica como parte dele novamente. A banda voltou as boas com o seu público, mas quando o álbum termina, fica a pergunta óbvia: o que virá a seguir? O que sabemos é que pelo menos agora, talvez dê para confiar que será algo realmente bom…

Nota: 9
Preste atenção em: “All Nightmare Long” e “The Day That Never Comes”… E “My Apocalypse”… E “The Unforgiven III”.
Para pular depois da primeira ouvida: É difícil de aturar “Suicide and Redemption” mais de uma vez…

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Bonus tracks

Nem só de álbuns de estúdio, covers e ao vivo viveu o Metallica. Além de músicas avulsas, houveram EPs e colaborações. Conste-se, o EP foi a única coisa realmente boa.

– Em 2000, a banda lançou “I Disappear” (a pivô do caso Napster), que é provavelmente uma das músicas mais sem graças, preguiçosas e fracas que qualquer um pode ouvir.

– Em 2002, foi lançada uma colaboração com o rapper Ja Rule chamada “We Did It Again”, que nem merece ser comentada com detalhes aqui. Se quiserem, procurem por sua conta e risco no Youtube.

– Em 2011, o Metallica foi a improvável banda de apoio de Lou Reed no seu álbum Lulu, um trabalho conceitual que é basicamente o tipo de coisa que você quer acreditar com todas as forças que é genial e na verdade foi você que não entendeu, mas a possibilidade mais forte é de que seja uma completa porcaria mesmo.

– No mesmo ano foi lançado o EP Beyond Magnetic, com quatro músicas que ficaram de fora do último álbum da banda. Os destaques ficam por conta da boa “Hell and Back” e da sensacional “Rebel of Babylon”, que faz pensar que eles bem podiam ter feito um álbum com 11 faixas.

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Bom, essa foi a discografia (e de certa forma uma biografia resumida) do Metallica. Apesar de todos os erros, das atitudes estranhas… e do St. Anger, não consegue deixar de ser minha banda favorita. O fato de terem errado de formas tão grosseiras e conseguido retomar a carreira de forma tão bem-sucedida só me fez admirá-los ainda mais. Que a banda continue ainda por muitos anos (ou pelo menos o suficiente para que eu conheça eles pessoalmente uma vez, haha).

Até o próximo “Comentando Discografias”, que vai ser um pouquinho mais curto, com uma banda um pouco menos conhecida, mas com músicas ainda mais épicas. Aguardem!

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2 comentários sobre “Comentando discografias: Metallica – Parte 5: Suicídio e redenção

  1. Quanto ao St. Anger, pelo amor de Deus, não compara um olodum mal ensaiado com as bandas nu metal que surgiram na época, não da pra comparar com NADA, e ok que você não goste de Korn, mas nem isso lembra. Sim, é realmente tenso de se ouvir o St. Anger, eu tenho ele aqui no meu acervo… por ter. Mas também, tem quem goste, existe de tudo. Já o Death Magnetic, eu acho uma das melhores capas de álbum que já vi na vida, mas pena que não posso dizer o mesmo do álbum, não sou muito fã dele, e muito menos fã tr00 em dizer que o Metallica acabou no Black Album, mas… Sim, Rick Rubin fez um ótimo trabalho com o Metallica, a sonoridade da banda comparada aos três últimos álbuns é absurdamente melhor, mas não fica ali entre Ride e Master pra mim.

    E… belo post, muito bom!

  2. Concordo com o que disse sobre o St. Anger, mas mesmo assim ainda ouço duas músicas dele. Claro que não ouço constantemente e sei que são estranhas, mas as vezes paro para ouvir. Assim como você disse, eu tenho certeza, quase absoluta, que tudo que fizeram foi proposital. Sabiam que iam causar um impacto negativo enorme, mas queriam expressar o que sentiam, acho melhor fazer isso do que se talvez se suicidar. Para dar uma viajada, talvez se o Kurt Cobain tivesse gravado algo semelhante, tivesse poupado a própria vida após ver o resultado. Pense que eles não estavam lidando muito bem com dinheiro, fama e coisas do tipo. Gravar algo ruim os deixaria fora de foco, para sempre ou talvez por um tempo. Portanto também digo que o Bob Rock é o grande cabeça da história, o melhor! O Metallica o contratou e conseguiu sucesso mundial, mas conseguiu até a mais do que suportariam. Talvez pediram para ele lhes mostrar a fórmula para o fracasso ou para conseguirem ser odiados pelo público pop que ganharam nos últimos anos.
    Vou comentar de maneira bem reduzida sobre o Death Magnetic: All Nightmare Long e The Day That Never Comes. Fim.
    Parabéns novamente.

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