Opinião: Dexter – Tonight is the night… and it’s gonna happen again and again and again and again…

No último domingo, Dexter, série outrora considerada uma das melhores da televisão, chegou ao seu fim depois de oito temporadas. Infelizmente, o sentimento que melhor descreve esse acontecimento, pelo menos para a maioria dos fãs… é alívio.

Dexter já foi uma das minhas séries favoritas e uma das melhores da televisão atual. Quando surgiu, a série chamou a atenção pelo seu protagonista: um serial killer frio, inteligente e sombrio, que se escondia por trás de um cara normal: amigo de todo mundo, irmão e namorado carinhoso.

A forma como o personagem foi sendo desenvolvido ao longo da série, suas várias faces, suas formas de lidar com determinadas situações e os problemas para esconder seu lado negro, o roteiro sempre inteligente e as tramas cheias de reviravoltas inusitadas, além de coadjuvantes cativantes (como Debra Morgan, irmã de Dexter, o sargento Doakes ou o bobo Masuka) ajudaram a formar a reputação e a marca da série. Até mesmo dois elementos que costumam ser encarados como muletas em qualquer roteiro funcionavam aqui: a narração em off do protagonista, ajudava o espectador a entrar ainda mais na mente dele e entendê-lo, enquanto o fantasma de Harry Morgan (pai de Dexter e quem o ensinou sobre o código de matar apenas outros criminosos), surgia como suaconsciência moral, para sempre mantê-lo no lugar e não desviar seu lado negro para um caminho ainda mais errado.

Tudo isso foi magistralmente orquestrado por Clyde Phillips, Daniel Cerone e Melissa Rosenberg, que foram os showrunners desde a primeira temporada (Cerone saiu na segunda). A série chegou ao seu ápice na quarta temporada, introduzindo um vilão tão brilhante e assustador quanto Dexter, o assassino Trinity. O final da temporada não poderia ter sido mais arrasador: num ato corajoso, os produtores fizeram uma gigantesca reviravolta na história e mataram Rita, grande amor de Dexter e uma personagem que sempre esteve a parte na série, servindo mais para mostrar o lado “humano” do protagonista do que para qualquer outra coisa.

E foi nesse delicadíssimo ponto da série que Phillips e Rosenberg – que tinham acabado de colocar a história no seu ápice – deixaram o comando do programa. Como continuar com a história depois dos terríveis acontecimentos do final da quarta temporada? Como Dexter iria lidar com a morte da sua mulher, ainda mais da forma como aconteceu? O que iria acontecer com o protagonista agora que a pessoa que era um dos seus pilares morreu de forma tão trágica? A resposta é simples: com um desafio tão grande nas mãos, os produtores que assumiram a série só conseguiram uma coisa: desastre.

Na tentativa de humanizar o personagem, transformaram-no num homem que foi perdendo cada vez mais sua identidade, tomando atitudes imbecis (por mais que a gente tente, quem consegue esquecer de “Nebraska”, episódio da 6ªtemporada em que ele sai fazendo doideiras com o irmão morto?) e fazendo a icônica e inesquecível abertura da série (que já mostrava como o personagem era insanamente metódico) parecer sem qualquer sentido, já que o sagrado Código de Harry foi jogado no lixo e Dexter tomava uma atitude impulsiva atrás da outra.

Como se não bastasse, o roteiro da série ia de mal a pior, apostando em coincidências, reciclando ideias e se repetindo constantemente. Se antes a narração e o fantasma de Harry funcionavam dentro do contexto, agora eles eram exatamente o que seriam em qualquer outra série: uma forma de desafiar a inteligência do espectador, deixando as coisas bem mastigadas (a cena mostrava, a narração descrevia e, julgando que ainda não tivéssemos entendido, Harry Morgan aparecia dando sua opinião sobre o assunto). Pior que isso, a narração tornava Dexter um mongoloide que vivia de se lamentar (e se fosse sobre Rita, ainda dava para relevar, mas nem isso era) e seu pai virou um sintoma de esquizofrenia, já que ele havia deixado de agir como consciência moral para ter discussões inteiras com o filho.

Os vilões que sucederam Trinity também foram de esquecíveis a simplesmente patéticos. A 5ªtemporada trouxe Lumen, um personagem sem qualquer desenvolvimento e consequentemente, sem qualquer graça, que só serviu para introduzir o vilão Jordan Chase e seus amigos que escondiam mulheres mortas em barris. Para quem achou o terceiro ano da série um pouco parado, esse foi uma verdadeira tortura. Quando acabou, a sensação foi de que vimos 12 episódios em que absolutamente NADA aconteceu.

Veio mais uma temporada e dessa vez tivemos um arco promissor, com um assassino que planejava mortes baseado em passagens bíblicas. Aqui vimos muitas coisas acontecerem, o problema é que todas eram péssimas. Na prática, a história foi patética, apostando numa reviravolta óbvia e ridícula a la Sexto Sentido e ainda contando com o pior episódio da história da série (o já citado “Nebraska”). Mas o season finale segurou todo mundo: Debra finalmente descobria o segredo do irmão.

A 7ªtemporada bem tentou recolocar a série nos trilhos, mas já era tarde demais: a essência de Dexter, por assim dizer, já tinha se perdido. Sentia que estava assistindo algo que já não era para existir mais e me perguntei: “porque estou acompanhando isso ainda, afinal?”. Preferi pegar um resumão da temporada depois que ela acabou. Fiz o mesmo com a oitava e última temporada, principalmente porque o comentário geral é de que ela estava péssima e bem… não tinha tempo para ver 11 episódios ruins só para ver o final.

Sim, eu vi o episódio final. Dexter fez parte da minha vida, independente do que acabou virando com os anos. Por isso, ver o último episódio seria como fechar de vez essa que já foi uma das minhas séries favoritas. Acompanhei a série desde a segunda temporada, senti quase a necessidade de assistir esse episódio, afinal, era simbólico e acima de tudo era o fim de uma série tão marcante.

Exceto pelo fato de que eu estava errado. Covarde, hipócrita e sem a menor coerência (Dexter ia fugir para a Argentina, o que já é tosco o suficiente, até resolver mudar de ideia, largando o próprio filho com uma sociopata e fingindo sua morte para o mundo. SÉRIO?), o final de Dexter mostrou que qualquer valor ou simbolismo que a série pudesse ter já não existia há tempos. O personagem que nos cativou há oito anos atrás morreu junto com Rita.

Levou junto com ele toda a engenhosidade dos roteiros, o carisma dos coadjuvantes e a relevância do programa para a televisão americana. Até mesmo os atores pareciam estar fazendo aquilo só para se livrar de uma vez. Michael C. Hall, que antes tinha uma atuação hipnótica como o protagonista, estava num piloto automático tão evidente que chega a dar agonia só de lembrar. E nem vou comentar do vilão, um personagem ridículo, com uma morte mais ridícula ainda.

Nos segundos finais da série, Dexter Morgan, sozinho, isolado e morto para o resto do mundo, olha diretamente para a câmera e, consequentemente, para o telespectador. O olhar do personagem (e porque não do próprio C. Hall) traduz os tortuosos últimos anos da série.

Ao invés de ser carregado de significado, é um olhar vazio, de alguém que não está mais lá, da sombra de alguém que um dia já foi relevante para nós. Dexter não estava mais ali, assim como não esteve conosco nos últimos anos. A noite de domingo passado foi a última noite. Não vai acontecer mais como acontecia, relembrando a mais icônica frase do protagonista.

E não há nada pior do que não sentir nenhuma saudade disso.

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