Filmes: Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014)

AMERICA3

Gênero: Ação
Duração: 136 min.
Origem: EUA
Direção: Joe Russo, Anthony Russo
Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely
Produção: Kevin Feige, Nate Moore

A chamada “Fase 2” da ambiciosa construção do Universo Marvel nos cinemas teve um início complicado com o fraco e decepcionante Homem de Ferro 3. No entanto, depois da boa sequência de Thor (principalmente comparado ao péssimo primeiro filme), a era pós-Vingadores da Marvel Studios chega ao seu auge com Capitão América 2 – O Soldado Invernal, uma continuação que supera o filme original em todos os aspectos e leva os filmes do estúdio para um nível completamente novo.

Uma das maiores surpresas de 2011 foi Capitão América – O Primeiro Vingador. Muita gente não tinha nenhuma expectativa para essa adaptação, principalmente pelo preconceito com o personagem, esperando que ele não funcionasse fora dos EUA ou alegando que seu patriotismo o limita demais (opinião que eu compartilhava até ler a HQ Guerra Civil). O roteiro eficiente e a ambientação na Segunda Guerra, entre outros fatores, ajudaram o filme a ser um dos maiores sucessos de bilheteria da Marvel, tornando a continuação muito mais relevante e aguardada.

O primeiro desafio de O Soldado Invernal era fazer o Capitão América funcionar nos dias atuais. No filme anterior, as coisas foram um pouco mais fáceis, já que o herói surge exatamente como o grande trunfo dos EUA na Segunda Guerra. E se as ocasionais piadas com o fato dele estar completamente deslocado do resto do mundo atual em Os Vingadores funcionavam, agora seria necessário justificar a necessidade de um símbolo como ele no século XXI.

Por isso, o trabalho dos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely (que também trabalharam no primeiro filme) é admirável, e segue com inteligência a repaginada no herói feita nas HQs,  já que ao mesmo tempo em que ainda investem em pequenas gags sobre o tempo que o Capitão esteve congelado (como o tão comentado livro de anotações com referências a cultura pop de cada país), mostram um herói confuso com seu papel de defender um país que parece não servir os mesmos ideais que servia no seu tempo, tentando servir o governo, mas questionando suas atitudes.

Claro que isso não é um mérito apenas do roteiro, já que Chris Evans surpreendentemente faz um excelente trabalho como um homem fora de seu tempo. Desde pequenos detalhes como a sincera cordialidade com as mulheres (a referência a Peggy Carter é emocionante) até belas cenas como o flashback do seu tempo como recruta, Evans convence como o homem com a experiência e mente de 95 anos num corpo de um alguém na casa dos 30. É curioso também perceber como Steve Rogers é muito mais aprofundado nesse filme do que na sua própria origem. Essa nova abordagem do herói para os tempos modernos mostra-o fiel ao mesmos ideais pelos quais lutava na guerra e, exatamente por isso, perdendo as esperanças nos EUA e em suas organizações.

Elementos reais como o famigerado Ato Patriótico são referenciados de forma explícita no filme, levando o protagonista a questionar o que exatamente é considerado liberdade e democracia nos dias atuais. Para quem começou nas HQs como uma mera propaganda para a guerra, é admirável ver como o Capitão América se tornou um personagem fascinante, seja nos quadrinhos ou no cinema, com suas limitações sendo usadas a seu favor (e dá até para lembrar da já citada Guerra Civil na forma de agir do protagonista e em uma cena específica num elevador, que apesar de não vir diretamente da HQ, lembra um momento do início dela).

Algo inesperado no filme, entretanto, o diferencia positivamente de praticamente todos as outros do estúdio. O desenvolvimento e a evolução até mesmo dos personagens coadjuvantes é uma grata surpresa. Depois de duas aparições apenas como espiã sexy e perigosa, a Viúva Negra é melhor trabalhada, não faltando menções ao seu passado ou a sua natureza ambígua (o que torna a ideia de um filme ou série da personagem cada vez mais interessante) e Scarlett Johansson continua impecável. Até mesmo Nick Fury, que antes era relegado a aparições ocasionais que pareciam servir só para mostrar como Samuel L. Jackson fica bem no papel, ganha um espaço aqui, sendo obrigado a tomar decisões difíceis, contando seu passado e fazendo parte de uma ótima perseguição de carros . Há a apresentação de um novo personagem, o Falcão, que tem ótimos momentos nas sequências de ação, mas não faz muito fora isso, devendo ganhar mais espaço em produções futuras.

As sequências de ação, aliás, são um dos pontos altos do filme. Apesar de alguns poucos momentos serem prejudicados pela desnecessária e lamentável conversão em 3D (que foi jogada goela abaixo dos brasileiros), elas são muito bem realizadas, divertidas e tensas como devem ser. O filme inteiro evoca o gênero de espionagem, seja no cinema ou em outras mídias, mas para quem é fã de video games, é difícil assistir a fantástica sequência inicial e não lembrar da franquia Splinter Cell ao ver o Capitão correndo e eliminando cada homem do barco em seu caminho.

Além dela, a  já citada perseguição de carros envolvendo Nick Fury e o clímax que envolve todos os personagens principais são eletrizantes, essa última em especial é para deixar qualquer um grudado na poltrona. Ela é, diga-se de passagem, uma das poucas cenas de ação onde os efeitos visuais se fazem realmente presentes, já que na maior parte do tempo investem em locações reais e efeitos mecânicos, o que ajuda a criar maior impacto e deixa as sequências ainda mais tensas como devem ser. O único e maior deslize desses momentos e, consequentemente do filme , são os artifícios usados para a conclusão das cenas, que de tão convenientes, soam um pouco ridículos (mesmo levando em conta os incontáveis gadgets dos personagens, aquela milagrosa ferramenta que abre buracos no chão pede um pouco demais da boa vontade do espectador).

Outro problema (esse não chega a prejudicar o filme, mas está lá), é ironicamente, no vilão – pelo que os trailers indicavam – que dá título para essa sequência. Tirado da aclamada história que leva o mesmo nome do longa, o Soldado Invernal parecia ser um personagem de enorme potencial e era óbvio que ele seria um dos focos centrais. Sabe-se lá porque, fora uma ótima luta entre ele e o Capitão América, o que sobra são aparições esporádicas que se perdem em meio a toda intrincada conspiração na qual todos estão envolvidos. É sugerido que veremos mais do Soldado no futuro, mas para o filme levar esse título, esperava pelo menos um pouco mais de desenvolvimento (ainda mais levando em conta que é uma das poucas produções da Marvel que parecem se importar com isso).

Por mais que seja um filme pós-Vingadores, Capitão América 2 contraria as expectativas de ser só mais um pedaço do universo da editora/estúdio – pelo fato de ter vários personagens que já apareceram em outras produções do estúdio – e funciona perfeitamente como um filme isolado, sendo até superior a qualquer filme solo feito pela Marvel Studios até agora (se equiparando apenas ao primeiro Homem de Ferro).

Claro, não faltam referências aos outros Vingadores – até porque seria idiotice simplesmente ignorar os acontecimentos da mega-produção – para compensar a limitação que o cinema traz em comparação aos quadrinhos na interação entre os heróis (lá, é comum outros personagens aparecerem para ajudar mesmo em histórias individuais, aqui entretanto, não existia a mínima chance de Robert Downey Jr. aparecer no filme como o Homem de Ferro só para ajudar o Capitão, por exemplo) entre outras referências ao Universo Marvel e até uma breve – e  divertida – menção a Pulp Fiction. Depois de erros como o primeiro Thor, em que o Deus do Trovão era coadjuvante de seu próprio filme em prol da preparação para Vingadores, a Marvel parece ter aprendido que pode fazer referências ao universo e uma história própria para o personagem sem pesar a mão em nenhum dos dois lados, agradando tanto os fãs que acompanham cada filme do estúdio quanto o grande público.

Sem nunca sacrificar o clima de diversão único e típico de um filme do estúdio, Capitão América 2 – O Soldado Invernal até aparenta, mas jamais segue o estilo realista dos últimos filmes da concorrência (salvo o terrível Lanterna Verde, claro), equilibrando com perfeição o inconfundível clima de aventura de histórias em quadrinhos que só a Marvel sabe criar com a paranoia da conspiração, a tensão, a boa construção de personagens e as reviravoltas da trama principal. Deixando algumas pontas soltas e promissoras, que nesse caso podem ser resolvidas em qualquer filme e não exatamente na sequência direta deste, é mais uma excelente produção para um estúdio que começou com ambições que pareciam absurdas, mas agora, se provam admiráveis. O fato é que, a cada filme, a Marvel Studios reforça não só o seu poder, mas sua garantia de bom entretenimento na indústria cinematográfica.

E se baseando nesse filme, quem tem a ganhar, só para variar, é o espectador.

Nota: 9

P.S.: É lógico que temos duas cenas pós-créditos. A primeira e mais importante, é para deixar os fãs da HQ ainda mais ansiosos para Vingadores 2. A segunda, mais ligada ao filme em si, abre caminho para o terceiro filme e até deixa a dica de que devem consertar um leve erro.

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