Filmes: O Hobbit – Uma Jornada Inesperada (2012)

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Gênero: Fantasia/Aventura
Duração: 169 min.
Origem: EUA/Nova Zelândia
Direção: Peter Jackson
Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens e Guillermo Del Toro
Produção: Peter Jackson, Fran Walsh, Carolyne Cunningham

A experiência de ver O Hobbit nos cinemas é, no mínimo, emocionante. Tudo porque o filme ultrapassou a falência do estúdio, atraso na produção, abandono de diretor e um quase cancelamento para conseguir chegar nas telas, para todos os fãs. E desde que tudo se acertou e as imagens e trailers começaram a sair, o filme virou a produção que mais gerou expectativa desde… O Senhor dos Anéis.

Por isso, se o filme causa emoção enquanto vemos, levando em conta tudo o que aconteceu para o filme sair e tudo o que tinha acabado de passar na tela… temos aí uma vitória. E diante disso, não tem como não sair do cinema cheio de alegria.

Quando Peter Jackson lançou a trilogia do Anel em 2001, apresentou a fantástica história de Tolkien para toda uma geração que conhecia pouco ou sequer sabia da existência de O Senhor dos Anéis. Deu para a Terra-Média milhares de novos admiradores (sem contar os milhares que já eram fãs antes dos filmes) e fundamentou esse universo no cinema sendo aclamado mundialmente. Talvez esses fatores tenham dado a segurança para ele transformar O Hobbit, o mais divertido livro de Tolkien, em três filmes e além disso, tenha dado segurança para ele fazer de Uma Jornada Inesperada, um filme para quem é grande fã da Terra-Média.

Claro, não quer dizer que só quem já é fã vai gostar, mas pelo menos este público já está garantido. Apesar de alterar em muitas coisas o livro, o grande acerto de Jackson foi adicionar uma série de outros elementos, enriquecendo muito mais a aventura simples que Tolkien criou há décadas atrás (algo que sempre esteve nos planos do próprio autor). A história original, traz o sossegado hobbit Bilbo Bolseiro (muito bem interpretado por Martin Sheen) sendo convocado pelo mago Gandalf (Ian McKellen, retornando ao seu papel mais icônico) como o ladrão de uma comitiva de treze anões, que saem numa jornada rumo a Montanha Solitária, para recuperar o tesouro que é deles por direito e foi roubado pelo gigantesco dragão Smaug.

Apesar de ser uma aventura dinâmica e que a primeira vista funciona muito bem como um blockbuster, O Hobbit poderia acabar parecendo um filme um pouco pobre, caso fosse seguida apenas a história do livro. Thorin, por exemplo, é um anão que todos respeitam e consideram importante mas não tem lá um grande motivo para isso, já na versão para o cinema, Jackson deu todo um pano de fundo para o personagem, mostrando porque ele é tão obstinado pela vingança contra Smaug e porque todos o consideram um herói (a cena da guerra nas Minas de Moria é espetacular).

Além disso, diferente da trilogia do Anel, em que todos os perigos que os personagens enfrentam tem relação direta com o grande vilão da história, em O Hobbit os anões e Bilbo pulam de enrascada para enrascada de modo aleatório, elas apenas existem no momento que eles passaram pelo lugar, algo aceitável no livro, afinal, imprevistos acontecem em qualquer jornada, mas que poderia parecer forçado e episódico no filme (porque TUDO acontece justo com eles?).

Para amenizar essa questão, Peter Jackson, juntamente com suas fiéis companheiras de roteiro Fran Walsh e Philippa Boyens (além de Guillermo Del Toro, que foi responsável pelo filme por um tempo) encontrou um antagonista menor para os anões, enquanto o encontro derradeiro com Smaug não acontece: aqui, o vilão é o orc albino Azog, retirado diretamente dos vários apêndices que Tolkien escreveu em O Retorno do Rei. Derrotado por Thorin na guerra de Moria, Azog passa a perseguir os anões pela Terra-Média junto com sua comitiva de orcs, o que dá uma razão de existir para todos os perigos que a comitiva enfrenta pelo caminho.

Não bastasse tudo isso, Uma Jornada Inesperada ainda traz um longo (e impressionante) prólogo, mostrando Erebor, a rica cidade dos anões e como ela foi tomada de modo implacável por Smaug. Entretanto, o grande mérito de Jackson foi ter conseguido adicionar todos esses elementos, para tornar a relação com O Senhor dos Anéis um pouco mais clara (já que o clima da história é bem mais leve), sem tirar a essência da obra original, que é uma aventura feita para crianças. Ainda que alguns momentos tenham seus tons épicos, o que predomina na maior parte do tempo é mesmo a aventura descontraída, que ainda tem breves momentos com o tom mais infantil do livro.

Mas Jackson não acerta em tudo nas suas várias adições para a história. Se a maioria serve para complementar ou costurar pontos da obra original de forma mais concisa, existe um elemento que também é exclusivo do filme que acaba se perdendo quando se olha o quadro geral das coisas: Radagast, O Castanho, um dos cinco magos da ordem de Gandalf, é um personagem um tanto aleatório e ainda que o roteiro tente de toda forma dar uma importância a ele, (criando a sub-trama completamente paralela a jornada dos anões, com a ameaça do chamado “Necromante) o fato é que, apesar de ser legal para os fãs de Tolkien ver um personagem pouco famoso ganhando vida nos cinemas, para a história como um todo, ele é um volume um tanto desnecessário (a sequência de apresentação do personagem é quase tão grande quanto o prólogo dos anões, sem a menor necessidade disso).

Mas a aparição do mago castanho deve ser compensada nas continuações, já que ao que tudo indica (o primeiro trailer já adiantava), Gandalf deve ir atrás do Necromante nos próximos filmes e, apesar de ser uma trama completamente paralela, é uma das que faz maior ligação com o que aconteceria com a Terra-Média alguns anos depois (além de ser algo que realmente aconteceu paralelamente a história dos anões, segundo o próprio Tolkien, nos seus apêndices).

No que diz respeito ao que foi tirado diretamente da obra original, não há muito o que reclamar: salvo a caracterização de alguns anões (Fili e Kili são quase filhos de Aragorn), o roteiro se mantém um tanto fiel aos acontecimentos do livro. Como já foi dito, há pequenas adaptações, para costurar os fatos com a ideia dos orcs caçando os anões, mas momentos como a chegada dos anões na casa de Bilbo, a sequência dos trolls e principalmente, a aguardadíssima cena das charadas no escuro, em que o hobbit encontra o Um Anel, são para deixar os olhos de qualquer fã do livro brilhando, tamanho o cuidado com a qual foram passadas para o cinema (a música dos anões é de arrepiar).

Diferente de O Senhor dos Anéis, onde todo o elenco brilhava em seus papéis, aqui ninguém tem atuações de muito destaque, algo que é até justificável, considerando que dentre os treze anões, menos da metade tem qualquer espaço na história (um problema que já vem da obra original, alguns não falam uma palavra durante o livro inteiro) e os que tem maior importância fazem um bom trabalho, mas nada acima da média (mesmo Richard Armitage, muito bom como Thorin, mas apenas isso). A exceção aqui é mesmo Martin Freeman, que conquista o público sem grandes problemas no papel de Bilbo, cheio de carisma, com um excelente timing cômico e muita química com Ian McKellen (este nem conta como uma exceção, porque convenhamos, McKellen não interpreta Gandalf, ele é Gandalf).

E ainda que se limite a apenas uma sequência, seria um pecado ignorar o trabalho de Andy Serkis, até porque sua participação é no melhor momento do filme, de longe. Gollum, um velho (e muito popular) conhecido dos espectadores, retorna em O Hobbit e o trabalho de Serkis, aliado ao que há de mais atualizado no conceito de captura de movimentos, coloca Gollum novamente no topo das criaturas digitais mais perfeitas da história do Cinema.Peter Jackson ainda fez questão de extrair a maior quantidade de caretas possível de Serkis e a sequência mostra todo o potencial incrível da tecnologia, de fato que sequer conseguimos pensar em Gollum como uma criatura digital enquanto vemos o filme.

Tecnicamente, como já era de se esperar, o filme é espetacular. A fotografia, tal como na trilogia do Anel, é de encher os olhos, mostrando lugares da Nova Zelândia que é até difícil de acreditar que existam. Direção de arte, maquiagem, efeitos sonoros, tudo que impressionava há dez anos atrás, está ainda melhor. E se esses aspectos melhoraram, o que dizer dos efeitos visuais, impressionantes até hoje nos filmes de uma década atrás, são todos levados ao que se espera da perfeição no Cinema atualmente.

Tudo o que Peter Jackson faz neste filme funciona perfeitamente para criar um vínculo emocional maior para os fãs de Senhor dos Anéis, mas, é claro, nada funciona de forma tão eficiente como a trilha de Howard Shore. Para quem é fã declarado de Tolkien ou só mesmo da trilogia original, é difícil não abrir um largo sorriso quando se ouve os primeiros segundos do tema do Condado. Ou ficar maravilhado com o épico tema dos anões (que remete diretamente a inesquecível música da Sociedade do Anel) e arrepiado com o imortalizado tema do Um Anel. É uma trilha inteiramente nova, mas com vários momentos que remetem aos filmes anteriores, o que prova que nada é mais eficiente do que a música para alegrar e emocionar esse retorno para a Terra-Média.

Muita gente perdeu a fé nesta adaptação quando foi anunciado que ao invés de dois filmes, ela seria uma trilogia, alegando (e até faz sentido, convenhamos) que seria impossível fazer três filmes de um livro tão curto. Se isso estivesse nas mãos de qualquer outro diretor, a afirmação poderia até ser um fato. Mas nas mãos do maior fã de Tolkien de que se tem notícia, fica difícil acreditar que os próximos filmes serão fracos. Nada que Peter Jackson incluiu nessa adaptação saiu da cabeça dele: Azog, Radagast, o Necromante e o Conselho Branco realmente existem na mitologia de Tolkien, só foram aproveitados aqui para tornar o filme mais denso e digno de virar uma trilogia e convenhamos, o que não falta é material para ser usado nesses filmes.

Apesar de leves excessos (como o já citado Radagast ou a aparição de Frodo, em uma inexplicável necessidade de tornar óbvio o vínculo com a trilogia do Anel, quando o próprio objeto aparece no filme), Uma Jornada Inesperada começa essa nova trilogia baseada no universo de Tolkien de forma grandiosa, apresentando novos e interessantes personagens, nos levando para uma aventura envolvente e deixando todo mundo com aquela vontade de viajar mais pelo fantástico mundo de Tolkien, trazido a vida por Peter Jackson, depois que o filme acaba.

O fato é que depois de tantos anos sentindo saudades da Terra-Média, ter a chance de viajar por ela de novo, ainda mais vivendo uma aventura como essa, é pra deixar qualquer fã ou simples admirador dos filmes anteriores, com um largo sorriso no rosto. E que comece a contagem regressiva para a segunda parte!

Nota: 9

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E os 48 fps?

Tão comentado quanto o filme em si, a tecnologia dos 48 quadros por segundo foi a grande inovação de Peter Jackson para O Hobbit e no fim das contas, no geral, pode-se dizer que ela funciona muito bem. Claro, nos primeiros minutos do filme, como os olhos não estão acostumados com tanta informação na tela, a impressão é de que o filme está um tanto acelerado (Bilbo aparece andando por um corredor escuro, em 48 fps parece que ele sai correndo desabalado pelo mesmo corredor), mas depois de uns 10 minutos, a tecnologia se torna quase imperceptível, salvo algumas cenas em que o CGI toma quase toda a tela e os movimentos ficam um pouco mais suspeitos do que numa projeção normal.

O 3D já é espetacular visto em 24 fps (ainda melhor no IMAX, claro), mas em 48, Jackson consegue fazer o que ninguém em Hollywood conseguiu até agora: pela primeira vez, somos levados realmente para dentro do filme, algo que na prática, todos os filmes em 3D tentaram e até então nenhum tinha conseguido, já que a impressão sempre era de estarmos vendo algo  pela janela, mas nunca estarmos de fato no meio da ação. Mas aqui, a sensação é de realmente estar dentro da Terra-Média e a riqueza de detalhes é inacreditável (Valfenda é praticamente uma obra de arte em movimento). As cenas de ação se tornam mais claras, de modo que conseguimos ver uma série de coisas acontecendo ao mesmo tempo e momentos grandiosos, como a cena dos gigantes de pedra, são de encher os olhos.

Apesar do incômodo inicial, essa primeira experiência com 48 fps é no mínimo interessante e, com ela, talvez os próximos filmes consigam utilizar a linguagem de forma ainda melhor. Só nos resta esperar…

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6 comentários sobre “Filmes: O Hobbit – Uma Jornada Inesperada (2012)

  1. Concordo em gênero, numero e grau. Apesar de que sinceramente o único Oscar que esse filme tem a chance de ganhar é o de melhor fotografia. Continue o bom trabalho, a próxima podia ser sobre Wreck-it Ralph!

  2. Foi uma verdadeira felicidade rever a Terra-Média na telona, em novas aventuras. Se para mim, fã apenas dos filmes, já foi especial, para os fãs dos livros como você deve ter sido uma experiência incrível!
    No geral, o filme me divertiu tanto que não me incomodei com nada de negativo que a crítica tem apontado. Descenessário aquele início com Frodo? Sim. Chato? De forma alguma. Pode até ter deixado o filme extenso,mas não liguei de ter ficado aqueles minutos amais sentado no cinema vendo essas cenas (ficaria até mais se tivesse).

    Quantos aos 48fps, adorei esse novo formato. Parecia que estava vendo algo semelhante a um blu-ray em casa. Confesso que irrito quando leio críticos falando “Nossa, esse formato fez parecer que fulano estava correndo em cena!” ou “Na versão convencional ele parecia hesitar ao pegar a pena e no 48fps ele simplesmente pegou a pena.” Alguns dão a entender que a estranhesa se dá por parecer real demais e aaargh. Para mim, estranho é quando se é artificial. Se os filmes no cinema pudessem ser o mais próximo possível da realidade, ficaria infinitamente feliz =D

  3. “A exceção aqui é mesmo Martin Sheen, que conquista o público sem grandes problemas no papel de Bilbo”

    Martin Sheen? rs.

  4. É muito Martin, muito Sheen e muito Freeman no Cinema, pra pouca memória, huasuhashuauhsahauaha. Já mudei, obrigado pelo toque, uhashuasuhahusa

  5. De boa rs. Agora sobre a crítica, quase não acreditei que na história original não aparece o Azog. Não li o livro e vi uns comentários negativos a respeito disso. Enfim, do ponto de vista de quem não conhece a história do livro, o filme funcionou muito bem com o Azog.

  6. Pingback: O Hobbit, sim o filme é tudo isso que as pessoas falam! | Geek Couple

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