Filmes: Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

Gênero: Ação/Drama
Duração: 165 min.
Origem: EUA
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan
Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas, Charles Roven

Um comentário recorrente na época em que Batman – O Cavaleiro das Trevas foi lançado, era que Christopher Nolan parecia ter elevado o padrão dos filmes de HQ de uma forma que nem ele conseguiria chegar novamente. Bem… só parecia.

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge vai muito além de um simples final digno: é um filme épico, que pode até não superar seu antecessor, mas não faz nem um pouco feio ao lado dele, superando as mais altas expectativas e encerrando de modo espetacular uma das melhores trilogias do Cinema moderno.

As perguntas eram muitas para esse terceiro filme e as respostas para elas seguiram a cartilha que cada filme da trilogia seguiu (em que as primeiras informações são sempre questionadas e criticadas pelos fãs). Conforme o lançamento foi se aproximando, claro, foi inevitável não ir ficando ansioso e, apesar do enorme peso que Nolan carregava de fazer um filme que batesse de frente com o anterior (e da descrença de que isso fosse possível), estava com expectativas lá no alto para ver o que ia acontecer, o que raramente costuma ser bom.

Ainda bem que Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge confirma mais uma vez que quando se trata de um filme de Christopher Nolan, por mais altas que sejam as expectativas, a garantia de satisfação ao final da sessão é sempre garantida. Não, o terceiro filme não supera o segundo. Entretanto, isso passa longe, muito longe, de ser algo negativo ou que enfraqueça o filme: Ressurge também é fantástico, também deixa atordoado, causa as mesmas sensações de seu antecessor e nas inevitáveis comparações que vão ser feitas daqui pra frente, não faz nem um pouco feio, sendo o encerramento perfeito para uma trilogia que parecia que não poderia terminar tão absurdamente bem.

Desde o começo, Nolan já deixa claro que pretende fazer um filme ainda mais grandioso que o segundo, em termos de proporção e sequências de ação. A cena inicial com o vilão Bane, já é de grudar na poltrona, tensa, desafiadora, extremamente bem produzida e, diga-se de passagem, provavelmente uma das melhores cenas de fuga do Cinema nos últimos tempos.

Quanto ao vilão já citado, a versão de Nolan para Bane, que surgiu na história de Batman como mais um vilão anabolizado e exagerado dos anos 90 (tal como Venom para o Homem-Aranha ou o Apocalipse para o Superman) foi surpreendente, exatamente por tornar o personagem muito mais interessante (e menos forçado, claro) que nos quadrinhos.

Mais do que isso, o cineasta, junto de seu irmão Jonathan Nolan (ambos assinam o roteiro), tornaram Bane o vilão perfeito para este último filme, pois é a união de tudo que os antagonistas anteriores de Batman representaram: traz o medo do Espantalho, a habilidade e inteligência de Ra’s Al Ghul, o caos terrorista do Coringa (neste caso, justificado, diferente do palhaço, que só queria ver “o mundo pegar fogo”) e o senso de justiça deturpado de Duas-Caras.

Sem poder se utilizar de expressões faciais, Tom Hardy trabalha toda a sua atuação na voz e gestos e interpreta Bane de forma bruta e visceral. Suas ações e o modo frio de agir tornam o personagem assustador tanto para os outros personagens do filme quanto para nós, espectadores. O modo como Nolan o retrata também (quase sempre, ele é filmado de baixo) o faz parecer ainda mais ameaçador. Mas talvez o maior mérito do personagem é conseguir se estabelecer como um vilão assustador e incrível, sem empalidecer perto do último antagonista de Batman (ainda que ele logicamente não seja melhor que o Coringa de Ledger, que continua sendo um vilão insuperável no gênero).

A outra “ameaça”, tal como nas HQs, não se estabelece exatamente como vilã, sendo mais uma… “distração” para Batman. Apesar de ser interpretada com uma eficiência impecável por Anne Hathaway, Selina Kyle, a Mulher-Gato, até tem sua importância na primeira parte da história ora ajudando, ora atrapalhando Batman, mas depois que o caos se instaura em Gotham e suas motivações ficam meio perdidas, ela acaba servindo mais como algo para os homens admirarem no filme (não a toa, Nolan tira o foco da personagem num momento em que Batman aparece menos, porque, vale dizer, ela funciona maravilhosamente bem ao lado dele).

Mas não é só de novos vilões que vive Ressurge. Há novos rostos que não surgem apenas para se colocar no caminho de Batman. Joseph Gordon-Levitt dá vida a um dos personagens mais interessantes do filme, o policial John Blake, com um senso de justiça que une o melhor de Batman e do Comissário Gordon, sendo quem mais cresce na história, tendo um papel muito mais importante do que eu esperava para a trama toda.

A última das novidades no elenco é Marion Cotillard, que interpreta Miranda Tate, uma milionária que surge como o par romântico de Bruce. Para minha surpresa, é a grande decepção no elenco, com uma interpretação fraquíssima (o que para essa atriz, é preocupante), mesmo depois de ganhar uma relevância crucial no clímax.

Quanto aos veteranos da franquia, Gary Oldman e Morgan Freeman repetem os ótimos trabalhos como Comissário Gordon e Lucius Fox dos dois últimos filmes, um como a base da justiça, o outro como conselheiro e “fornecedor” de Batman. Mas é Michael Caine que se destaca entre os coadjuvantes veteranos, repetindo seu papel do mordomo Alfred, que sempre foi a base moral tanto de Bruce Wayne quanto de Batman (porque sim, são duas pessoas diferentes), faz o seu melhor trabalho na trilogia, soltando discursos sempre com autoridade e, em dois momentos específicos, conseguindo emocionar pela enorme lealdade e carinho que tem por Bruce, não só como um mordomo ou amigo, mas como um pai.

Por fim, Christian Bale interpreta Bruce Wayne/Batman uma última vez (sendo aqui o ator que interpretou o personagem mais vezes no cinema), mais seguro do que nunca na trilogia e representando de forma excepcional toda a enorme dramaticidade que o personagem carrega nesse filme (vale dizer que esse é, de longe, o filme mais dramático da trilogia, há pouquíssimas cenas de humor – uma delas é particularmente excelente). E sua particularidade de mudar a voz quando é o Batman mostra um detalhe respeitoso aqui: ele mantém aquela característica rosnada na voz mesmo quando fala com alguém que já sabe sua identidade secreta, mostrando que, como eu já disse, Wayne e Batman são pessoas diferentes.

O elenco é extenso e rende diversas subtramas, que poderiam tornar o filme uma verdadeira bagunça. Isso felizmente não acontece, graças ao excelente roteiro dos irmãos Nolan. A trama, apesar de complexa, se desenvolve de forma bem linear e com várias explicações detalhadas (algumas até demais).

Fora isso, é um trabalho no mínimo, pretensioso já que no meio de toda a ação, eles conseguem tratar de política, economia e diversas questões morais e sociais, fazendo até referências a vida real: O prefeito de Gotham fingindo que nada está acontecendo enquanto um terrorista toma conta da cidade não lembra um certo presidente americano? Além disso, a reação de Gordon a um certo discurso no filme não poderia ser mais apropriada.

A primeira vista, soa exagero e parece que Nolan está levando seu filme a sério demais… e ele está mesmo fazendo isso, mas não por ser exagerado. O cineasta estabeleceu Batman como um personagem sombrio num mundo realista e assustador e aqui, ele chega ao ápice desse realismo: depois de um certo envolvimento com a história, é difícil acompanhar tudo o que Bane faz em Gotham a partir da inacreditável cena no campo de futebol sem se sentir terrivelmente impotente e até agoniado, exatamente porque Nolan não deixa soar como algo fantasioso.

Claro que os méritos para o filme provocar esse tipo de reação não vão apenas para o roteiro. A intenção é afetar o espectador, mas Nolan só consegue isso porque sua direção é incrível e precisa, tal como no segundo filme (mas com diferentes objetivos). A insuportável tensão, constante em toda a trilogia, se faz mais presente do que nunca aqui e, como se não bastasse, é aliado a um clima sufocante que toma conta do filme no segundo ato.

Além disso, uma das marcas do diretor, que é o corte rápido entre cenas que estão acontecendo simultaneamente, rende alguns momentos de grande e certeiro impacto, como na sequência no campo de futebol (em que todos correm contra o tempo para tentar impedir Bane de executar seu plano, ao som do hino dos EUA cantado por uma criança).

O clima tenso e sufocante já citado também é possível graças a excelente fotografia e a espetacular trilha sonora de Hans Zimmer, no seu melhor trabalho de toda a trilogia. Sobre a primeira, o trabalho de Wally Pfister perde completamente qualquer resquício mais fantasioso (que ainda se fazia presente em Begins, no subúrbio de Gotham, por exemplo) para um tom triste e verossímil.

Enquanto isso, a trilha sonora contribui para o tom épico da produção, com músicas grandiosas pontuando a maior parte do filme. Uma cena em especial, envolvendo um profundo poço, aliada a trilha sonora, se torna emocionante. Vale dizer ainda, que exatamente por contar com uma trilha tão grandiosa tocando incessantemente, a decisão de Nolan de deixar uma cena em especial quase sem nenhum som a não ser as exclamações dos dois personagens envolvidos fez desse momento um dos mais tensos, pesados e desesperadores da trilogia (sendo também uma referência direta e muito bem-vinda das HQs).

Por fim, não dá para ignorar os eficientes efeitos visuais do filme, que como nos filmes anteriores, são quase todos mecânicos, o que dá uma beleza maior ao projeto (mas mesmo os voos do novo transporte de Batman são fantásticos).

O filme reforça o que Nolan já tinha conseguido mostrar nos dois primeiros Batman e em A Origem: a divisão entre os blockbusters e os filmes mais profundos, com uma história e roteiro mais elaborados pode ser quebrada. É possível fazer um filme baseado em HQ que seja mais do que ação e efeitos visuais, que tenha uma grande história que faça refletir. Se arriscando mais do que já tinha se arriscado por toda a franquia, o cineasta toma algumas decisões no final da história que vão causar certa discussão entre os fãs, mas de forma nenhuma devem tirar o seu crédito, até porque, tudo que foi feito tem uma boa razão.

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um encerramento épico para uma trilogia que mudou para sempre os padrões dos filmes baseados em HQs e porque não dizer, do Cinema como um todo, já que deixou alguns marcos e revolucionou algumas coisas (o Coringa de Ledger, as cenas em IMAX…).

Christopher Nolan encerra aqui sua trajetória com Batman, amarrando todas as pontas, retratando o herói como uma verdadeira lenda (o que está em vários pôsteres não é a toa) e dando toda a grandiosidade que o final de uma saga como essa merece. E como se não bastasse, antes do título do filme surgir e encerrar de vez a história, ele ainda faz questão de deixar uma porta aberta para quem quiser se arriscar a começar uma nova história em Gotham City.

Ainda é cedo para dizer se a Warner vai dar sinal verde para uma nova produção. É difícil imaginar alguém mais competente que Nolan para dirigir um filme da franquia depois desses três… mas depois que ele conseguiu apagar tudo o que foi feito anteriormente com Batman no cinema e elevá-lo de piada exagerada a um dos maiores heróis da história do Cinema… dá para acreditar em um pouco de tudo.

Mas caso o estúdio resolva declarar o encerramento da lenda do homem-morcego nos cinemas aqui, o que fica é o legado de um dos melhores cineastas dessa geração para o herói, responsável por três dos melhores filmes que o Cinema já viu nos últimos anos. E bem… uma inevitável ponta de saudade por parte de todos os fãs, que acompanharam a saga de Batman por todos esses anos e iam ao cinema sempre com a certeza de serem surpreendidos.

Filmes assim não saem todos os dias e agora que essa trilogia chegou ao fim, sabe Deus quando virá um outro…

Nota: 10

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6 comentários sobre “Filmes: Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

  1. Confio em Nolan em qualquer filme que ele faça. Agora tenho mais certeza que ele é mestre. Irregularidades existiram? Sem dúvida. Mas os pontos positivos derrubaram-nas e Anne Hathaway engrandeceu as cenas.

  2. Ótimo texto, parabéns. É uma pena que Nolan não irá fazer mais filmes sobre o Homem Morcego… =(

  3. Sinceramente?!
    Batman foi um dos melhores ou o melhor filme que vi nos últimos tempos, ter o Batman como um dos seus super-heróis desde infância e ver o final como eu vi, e até chorei é algo surreal cara. Voltando ao que realmente queria falar, nunca vi você escrever desta forma, o filme ajuda, mas você chega a um patamar muito foda, você tem um pensamento legal, e o jogo com as palavras fica fácil. A nota desse filme vai além de um simples 10, que claro tem efeito de nota, mas pra gente que viu um filme ser aplaudido como foi, pela galera toda no fim, é de um jeito que eu nunca havia visto, tome essas palmas pra ti também Marcelo, texto perfeito, parabéns pelo excelente texto. Ah: WHERE ARE YOU!?

    HERE!

    Não tinha como não escrever isso hahahaha.

    Abraços!

  4. “ele mantém aquela característica rosnada na voz mesmo quando fala com alguém que já sabe sua identidade secreta”

    Até mesmo sozinho ele fala com o tom rouco XD

    Falando sobre a resenha, discordo em alguns pontos (como quando você diz que o roteiro é ótimo, sendo que ele é o que mais apresenta furos e o único que tem diálogos risíveis em toda a trilogia), mas concordo com 80% do que é dito aqui.

    PS> vale lembrar que o corte original do filme tem 4h e o que vimos nos cinemas tinha 2h e 45m, provavelmente esses furos devem-se ao corte enorme feito aqui.

  5. cara!!! parabéns pelo texto, acho q foi a melhor coisa q li até agora sobre esse filme! vc conseguiu traduzir com maestria toda a grandiosidade q o filme nos oferece!!!
    tah de parabéns!!!

  6. Existe algo pior do que um psicopata?
    Sim!
    Uma psicopata (Aranha Armadeira)

    “E eu achei uma coisa mais amarga do que a morte, a mulher cujo coração são redes (de intrigas), e cujas mãos são ataduras (grilhões); quem for bom diante de Deus escapará dela, mas o pecador virá a ser preso por ela (se tornará seu escravo)”. Eclesiastes 7:26

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