Filmes: Histórias Cruzadas (2011)

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Octavia Spencer!

Gênero: Drama
Duração: 146 min.
Origem: EUA
Direção: Tate Taylor
Roteiro: Tate Taylor
Produção: Chris Columbus, Michael Barnathan, Michael Radcliffe

Sucesso de bilheteria nos EUA, Histórias Cruzadas é aquele típico “filme de elenco” que entra nas premiações todo ano. Porque, se tirarmos as excelentes atuações, não sobra muita coisa…

Isso, sinceramente, é triste. Considerando a temática do filme (a extrema intolerância racial dos anos 60, o ataque contra os negros naquela época, como os EUA eram antes dos direitos civis), ele devia render alguma discussão e reflexão, principalmente por tudo que acontece ao longo da história. Na prática, entretanto, a produção tão promissora se resume a um amontoado de clichês numa trama maniqueísta, boba e quase novelesca.

O roteiro de Tate Taylor é raso e bem pobre, além de ser o ponto mais fraco do filme, o que prejudica de forma irreparável o resultado final. Os personagens inicialmente se mostram quase todos muito interessantes e os dramas explorados nas subtramas do filme podiam até render algo. Infelizmente, tudo isso se perde, pois além de se aprofundarem um pouco demais nas subtramas que menos importam, todo o roteiro se desenvolve em função de estabelecer quem devemos odiar e para quem devemos torcer. Se era pra isso acontecer, deveria ser algo natural,mas ao invés disso, o filme se mostra com um maniqueísmo que beira ao absurdo, estabelecendo dois lados: o das domésticas tristes e sofredoras (elas sofrem mesmo, mas não são tão inocentes assim) e das patroas monstruosas e absolutamente odiáveis.

Se perdendo num festival de estereótipos, os personagens de Histórias Cruzadas chegam até a lembrar tipos novelescos as vezes. E o filme só não vira uma novela de fato porque o elenco faz um trabalho tão respeitável que quase esquecemos que os personagens são tão rasos. A atuação de Bryce Dallas Howard é algo digno de aplausos, pois sua personagem, a socialite Hilly (colocada como a grande vilã do filme), é tão absurdamente maligna que uma atriz despreparada poderia fazê-la parecer alguém absolutamente caricata, entretanto, Howard faz um trabalho maduro e, apesar de tudo, nos faz acreditar na personagem (e, invariavelmente, acabamos adquirindo a repugnância por ela que o diretor tanto força).

Enquanto isso, Jessica Chastain surge adorável como a socialite boazinha e inocente que quer ser aceita pelo grupo (e confesso que passei o filme inteiro pensando que ela estava interpretando dois papéis, porque parece MUITO com Howard) e sua química com Octavia Spencer é excepcional. Quanto a Spencer, que venceu o Oscar pelo papel,é de fato um trabalho excelente, mas em alguns momentos do filme, dá pra refletir se foi mesmo um prêmio merecido. São tantas caras e bocas que muitas vezes, mesmo sem querer, a atuação acaba caindo na caricatura.

Por esse e por outros motivos, ninguém no elenco se sai melhor do que Viola Davis, que faz um trabalho incrível como Aibeleen. Com uma atuação que se sobressai diante de todas as outras, repleta de pequenos detalhes (um olhar diferente, um tremor de mãos… é o tipo de atriz que, sem palavras, consegue dizer tudo que precisa passar para a personagem), é a que rende alguns dos melhores momentos do filme, como por exemplo, a história do seu filho, que chega a arrepiar. Infelizmente, diante dessas quatro atuações grandiosas, Emma Stone pouco tem a fazer no papel da protagonista Skeeter. Faz um trabalho apenas correto e, não fosse o fato de sua personagem ser a responsável por encorajar as domésticas a tomarem uma atitude, ela nem precisava estar lá.

E o mais frustrante do filme diz respeito exatamente a essa “atitude” das domésticas. A tal “resposta” mencionada no título nacional do livro (alias, a alteração do nome do filme para Histórias Cruzadas aqui no Brasil foi ridícula e não faz sentido comparado ao nome original – “The Help”, que tem um significado dúbio ao se referir às domésticas e ao fato do livro relatando experiências delas ajudá-las – ou ao nome do livro aqui no Brasil – “A Resposta”, que seria a atitude tomada pelas domésticas), que deveria expor toda a desigualdade daquela época e servir como um avanço em relação a luta contra o preconceito racial, se perde completamente para o espectador. Tudo porque o diretor e roteirista, numa atitude inexplicável, foca o impacto do livro de Skeeter nas patroas brancas, fazendo ele parecer apenas uma publicação polêmica, o que faz o filme soar quase como um retrocesso em tudo o que tinha a intenção de combater.

Como se não bastasse, ele ainda segue outro ponto crucial para conquistar a Academia e, em determinado momento, passa a despejar cenas cada vez mais apelativas para levar-nos às lágrimas. Na cena final, diga-se de passagem, só faltou o diretor aparecer na tela e gritar para todo mundo começar a chorar. E claro, eu não estaria apontando isso como algo negativo se o filme realmente emocionasse (pra citar uma produção recente, o nacional O Palhaço é um ótimo exemplo disso), mas quando deixa de ser natural e a apelação fica clara (a já citada cena final usa TODOS os artifícios possíveis), a emoção se perde. Novamente, é algo triste de se constatar, já que o filme tinha um potencial para isso também.

Diante de tudo isso, salvo o trabalho de Viola Davis o único ponto realmente incrível da produção fica com os aspectos técnicos do filme: a recriação da época é impressionante,  tanto na direção de arte quanto nos figurinos e cumpre seu papel com perfeição ao mostrar como as casas das patroas são confortáveis mas sentimentalmente vazias e o ambiente simples e pobre das domésticas é acolhedor (não fosse o maniqueísmo na construção dos personagens, esse aspecto seria bem mais interessante do que acaba sendo). Além disso, o filme ainda conta com uma bela música de Mary J. Blidge (“The Living Proof”, composta especialmente para a produção.

Mesmo que bem intencionado e com belas atuações, Histórias Cruzadas acaba se equivocando no seu discurso e traz os seus temas mais importantes como um simples pano de fundo, se concentrando mais numa briga boba entre o “bem e o mal” numa sociedade que não se divide exatamente dessa maneira (as patroas não são malignas, apenas vivem baseadas na extrema ignorância daquela época em relação às questões raciais).

Pensando bem… o filme é exatamente igual uma novela mesmo.

Nota: 6

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