Resenha – Show: Iron Maiden (Estádio do Morumbi – 26/03/2011)

Uma das melhores coisas do Iron Maiden é que eles não te dão muito tempo para sofrer de arrependimento por ter deixado um show deles passar. Em 2009, meus amigos foram no show da turnê “Somewhere Back in Time” e na época, como não era um grande fã de Maiden, nem cogitei a possibilidade de ir. Depois que viciei nas músicas da banda e vi o setlist daquela turnê, me odiei diariamente por ter ignorado aquele show. Com isso, no último sábado estava numa ansiedade quase insuportável para ver a Donzela e me redimir daquele meu erro fatal.

Sem o apelo de tocar só clássicos, mas com algumas das melhores músicas do ótimo novo CD, o Iron Maiden fez  um show que foi além de redimir minha falta com o show de 2009: eles fizeram o dia 26 de março de 2011 um dos mais inesquecíveis da minha vida.  Bem, para mim e para mais de 50 mil pessoas…

Faltavam poucos minutos para as 21h quando “Doctor Doctor” do UFO – a música que anuncia que o Maiden está para tomar o palco – começou a tocar no Morumbi. Foi no “verdadeiro” horário do show, as 21h, que (em mais um exemplo da pontualidade irretocável dos britânicos) todas as luzes do estádio se apagaram, um vídeo surgiu no telão e a caótica introdução de Satellite 15… The Final Frontier soou em alto e bom som no Morumbi. Vale ressaltar que a maneira como montaram esse vídeo exibido durante a intro foi genial. São dezenas de imagens passando de modo desesperado pela tela, bem do jeito que os fãs ficaram quando a música começou.

Quando a “segunda parte” da música está pra começar, eis que uma única luz se acende no palco e revela ele, Bruce Dickinson, que levou o estádio abaixo junto com o resto da banda quando eles começam a tocar a faixa-título do novo CD, maravilhosamente bem-aceita pelos fãs, que gritavam o refrão (que parece ter sido feito só pelos shows, por ser tão simples) com uma empolgação genuína. Logo depois, foi a vez de “El Dorado” conquistar o público.

Depois de duas novidades, nada mais justo do que uma velha amada dos fãs, certo? E 2 Minutes to Midnight foi a que fez os fãs enlouquecerem. E é nela que eu devo ressaltar que, se a performance dos caras já me impressionava no DVD, ao vivo ela beira ao surreal. Era absurdo ver que no show, as músicas, tanto clássicas quanto mais recentes, ficaram absolutamente irretocáveis. Algumas, como esse clássico citado, soaram como se tivessem saído diretamente do CD.

Isso claro, se dá porque os seis integrantes, todos cinquentões e com três décadas de estrada, ainda se apresentam cheios de um vigor e energia dignos de início de carreira. Steve Harris toca seu baixo com aquela fúria incomparável, pula e aponta o instrumento pra todos os lados (no gesto que ele imortalizou), Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers executam os solos com uma perfeição assustadora e esse último ainda continua ensandecido no palco, correndo pra todo canto, pulando, chutando e brincando com a própria guitarra.

E Bruce Dickinson dispensa comentários. Sério, vou tentar não falar muito da performance dele aqui, pois caso contrário ninguém mais vai ler esse texto, dada a quantidade de elogios que ia sair. É uma performance beira ao desumano de tão incrível. Seu poder vocal continua impressionante e a fúria ao cantar, junto com o enorme carisma ao falar com o público me fazem ter orgulho de dizer que vi um dos maiores frontmans da história do heavy metal ao vivo.

Um grande exemplo do poder da performance dele está nas três musicas que vieram a seguir. Depois de o Morumbi ferver de um modo inacreditável com menos de meia hora de show, era hora de respirar um pouco (mas só um pouco) para mais duas espetaculares canções do The Final Frontier. Primeiro veio a épica The Talisman, uma performance belíssima, daquelas pra admirar mesmo. E depois de um discurso sobre a tristeza de voltar pra casa e ter que deixar os amigos para trás, a banda embalou Coming Home, responsável pelo momento mais emocionante do show (Chorar? Eu? Que absurdo). Prevejo que essa música vai acabar se fixando nos setlists de turnês futuras, ficou perfeita ao vivo.

Depois de todos se recomporem do baque de Coming Home, foi a vez dos primeiros acordes de Dance of Death ecoarem no Morumbi. A música, que já é excelente, arrepia ao vivo, Bruce conta a história da letra realmente interpretando tudo que acontece nela, numa performance hipnotizante. O trio de guitarristas rouba a cena no solo e Nicko ajuda a levar a música nas costas, com seu trabalho matador no pedal duplo (é uma das únicas músicas do Maiden que o bateirista usa o recurso). Antes mesmo que pudéssemos pensar sobre o que acabamos de ver, o inconfundível riff de The Trooper começa, deixando os fãs completamente insanos, parecendo competir com Bruce para ver quem consegue cantar mais alto. E como respirar é para os fracos, a banda logo emendou seu clássico da nova década, The Wickerman, cujo refrão foi entoado com paixão por cada uma das pessoas presentes no estádio.

Antes que eles matassem todos os fãs ali com toda essa seqüência matadora de músicas, tivemos mais uma pausa para o Mr. Air Raid Siren falar sobre as tragédias ocorridas no Japão, Líbia e Egito. Dizendo que não importa a raça, religião ou sexo, éramos todos “irmãos de sangue”. Foi a deixa, claro, para Blood Brothers, talvez a música mais bonita do Maiden. Aproveitando o momento mais emocional, foi a vez da última música do novo CD ser apresentada aos brasileiros. A épica When the Wild Wind Blows – uma das melhores canções que a banda já fez – nos seus 11 minutos, pode não ter tido uma resposta enlouquecida dos fãs como as anteriores, mas foi um dos melhores momentos do show, de longe. Tão fantástico que foi difícil não se emocionar.

Daí em diante, foram só clássicos, para alegria dos saudosistas (e dos chatos também, hehe). The Evil That Men Do, como já é costume, trouxe Eddie ao palco, na sua nova versão, para uma “luta” contra Janick Gers. Sempre achei essa música melhor ao vivo e vi que não estava enganado. Encerrando a primeira parte do show, veio a obrigatória Fear of the Dark, que rendeu centenas de isqueiros e celulares acesos por todo o estádio, criando um efeito bonito que deu um clima a mais para a música, maior sucesso comercial da banda. E por fim, Iron Maiden foi a última antes do bis, com uma agradável surpresa aos paulistas: a cabeça gigantesca do novo Eddie surgiu de repente atrás de Nicko! Foi a primeira vez que o novo bichão foi usado na turnê.

Quando a banda saiu do palco, os fãs não tiveram tempo de pensar em descanso. Um minuto depois, a frase que abre a matadora The Number of the Beast já começou, sendo entoada por todo o Morumbi, que vibrou com a performance sempre explosiva da banda nessa música, que ainda contou com a presença de um boneco dele mesmo, o capeta, só pra dar um clima mais medonho ao momento. Bruce então se preparou para começar o clássico supremo da banda: Hallowed Be Thy Name me fez perguntar se eu estava mesmo vendo aqueles seis, mais próximos do que nunca, tocando aquela que era uma das melhores canções de heavy metal da história. Incrível é pouco.

Contrariando as expectativas de vários fãs esperançosos, o Iron encerrou o show sem mudanças no setlist, com mais um clássico da era Di’Anno, Running Free. Aqui Bruce aproveitou pra apresentar a banda e até deu um novo gás a música, que eu achava bem “quebra-clima” pra encerrar o show, mas no fim terminou funcionando (eu continuo não sendo grande fã da música, mas vai, ela ficou legal no fim das contas). Quando a banda agradeceu, fez sua distribuição de palhetas e baquetas e se retirou, ainda tinha gente esperando mais, mas logo “Always Look on the Bright Side of Life” do Monty Phyton começou a tocar, pra confirmar que o show, infelizmente tinha acabado.

Minha música favorita, Run to the Hills, ficou de fora. Muita gente ficou indignada com isso, a princípio, eu também fiquei. Mas depois de ir no show… eu vi Steve Harris apontando seu baixo como uma arma, com seus dedos voando pelas cordas. Vi Janick jogar a guitarra pro alto e pegar na brincadeira, vi Dave Murray e Adrian Smith tocando com uma perfeição invejável, vi Bruce correndo e pulando pelo palco, mostrando porque é um dos meus vocalistas e frontmans favoritos, vi o Eddie! Vi seis caras se apresentando com uma paixão genuína, caras que hoje já são considerados quase lendas do heavy metal tocando algumas das melhores músicas da história do gênero. É impossível reclamar assim.

Sim, não houveram surpresas. Sim, algumas músicas tiveram suas faltas sentidas, como essa que citei. Mas essa é uma banda que se garante e faz um dos melhores shows que se tem notícia mesmo sem grandes improvisos. Ao final do show, me lembrei de um momento do documentário Flight 666, em que é mostrado um fã, marmanjo metaleiro e cabeludo, aos prantos, logo depois da banda sair do palco.

Quem assiste aquilo sem nunca ter ido a um show do Maiden acha um dramalhão imenso. Mas depois que saí do Morumbi, deu pra saber exatamente como aquele cara se sentiu: eu, assim como vários fãs entre aqueles 55 mil no Morumbi, vi o Iron Maiden, a maior banda de heavy metal da história, pela primeira vez. E perceber a dimensão disso na vida de um amante do rock faz qualquer um compreender a reação tão exaltada daquele fã… Bruce deixou bem claro ao fim do show:

Nos veremos em breve!

E ficaremos esperando Bruce, ficaremos esperando…

Setlist:
1. Satellite 15… The Final Frontier
2. El Dorado
3. 2 Minutes to Midnight
4. The Talisman
5. Coming Home
6. Dance of Death
7. The Trooper
8. The Wickerman
9. Blood Brothers
10. When the Wild Wind Blows
11. The Evil That Men Do
12. Fear of the Dark
13. Iron Maiden
Bis:
14. The Number of the Beast
15. Hallowed Be Thy Name
16. Running Free

Imagens: Ig, Coredump e Midiorama

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8 comentários sobre “Resenha – Show: Iron Maiden (Estádio do Morumbi – 26/03/2011)

  1. Parabéns Celo, vc é a nova groupie do Iron Maiden!!!! Confesso que chorei na “Hallowed Be Thy Name”…quase aos prantos….e o melhor de tudo: descobri q no clima do show eu sei cantar todas as musicas do Iron (menos as do novo cd)!!! =D

  2. Por um momento, lendo o seu texto, eu me senti exatamente do mesmo jeito que eu me senti qdo eu estava lá, vendo ao vivo. cada palavra que vc usou caiu perfeitamente nesse texto…puts nem sei o que dizer… acho que como vc disse, a figura do metaleiro barbudo “from hell” chorando no final de um show do documentário Flight 666 resume tudo. Eu fiquei assim o show inteiro, não conseguia esboçar reação nenhuma perante a incrível performance de Bruce Dickinson e da emoção de ver toda a banda ao vivo. Qdo a gente tava saindo do estádio, eu ouvi dois caras de uns 30 anos cada falando mais ou menos assim: “Porra mano, chorei que nem um pivete nesse show.” Acho q isso resume tudo.

  3. Não vou ficar dizendo tudo de novo oq achei do show senão nao saio daqui hoje, hahaha.MAs enfim, é isso. Maiden ao vivo é 10X melhor do que eu esperava. Certamente foi um dos melhores dias da minha vida, sem dúvidas. E considerando que eles simplesmente chegam lá no palco e fazem o seu show, sem efeitos especiais nenhum, sem ajuda da mídia e sem nada que qualquer outra banda moderna usaria, me diga: Tem banda melhor ao vivo? Se sim, são poucas. OS caras simplesmente chegam no palco e fazem oq sabem fazer: Música. E é isso que está faltando nos dias de hoje.

  4. Não teve The Prisoner
    Mas fazer o que, os Irons é a maior banda de metal do mundo. UP THE IRONS!

  5. Caras a trinta anos atraz conhecia Iron com a musica Running Free, criei meu filho ouvindo Maiden desde a barriga da mâe , quando soube do show em outubro ja me preparei que iria fazer essa viagem pois sou do interior de SP., no sábado primeiro dia de venda de ingressos acordei as 3:30 da manhã e comprei dois ingressos, no dia show pensei q iria ter um infarto, eu não consigo lembrar até hj as música q. ouvi minha preocupação era tanta de ver os caras rsrs, mas no alge dos meus 49 anos topo toda essa aventura novamente..pulei que nem um cavalo meu filho até ficou preocupado..afinal Maiden ta na veia

  6. Só de ler já dá uma vontade imensa de ir ao show de uma das melhores (se não a melhor) banda de heavy metal.
    amei teu texto, Parabéns !

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