Filmes: Cisne Negro (2010)

Vencedor do Oscar
Melhor Atriz (Natalie Portman)

Gênero: Drama/Suspense
Duração: 103 minutos
Origem: EUA
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz, John McLaughlin
Produção: Jon Avnet, Brad Fischer, Scott Franklin, Jennifer Roth

Com uma carreira impecável, Darren Aronofsky já provou ser um dos melhores cineastas da década passada. E depois de dar a Mickey Rourke o papel de sua vida e fazer um dos melhores filmes de luta que o cinema já viu (o espetacular O Lutador), ele volta com o que parece ser um assunto um tanto delicado (o balé), mas que logo se mostra ser mais sério e cruel do que aparenta, numa obra devastadora e sensacional.

Esse filme traz uma curiosidade interessante, e que explica um pouco algumas similaridades com o último filme de Aronofsky. Recentemente, o cineasta afirmou que O Lutador e Cisne Negro começaram como um mesmo roteiro, em que um lutador se apaixonava por uma bailarina (sim, eu também visualizei Mickey Rourke e Natalie Portman como um casal e pareceu bizarro), mas que com o tempo acabaram virando histórias independentes.

No entanto, é assustador ver como idéias aparentemente tão distintas são tão parecidas: “The Ram” (personagem de Rourke no filme de 2008) e Nina parecem não ter uma vida além do que praticam, estão entre os melhores no que fazem (Ram era, no passado), se punem constantemente por isso e parecem estranhos quando estão vivendo de uma forma diferente.

Mas se a transformação de Ram ocorre no físico e emocional, a bailarina Nina (Natalie Portman) vai se degradando mentalmente. E se em O Lutador acompanhamos a jornada do protagonista simpatizando com ele e torcendo para que ele acerte sua vida, em Cisne Negro o caminho rumo a loucura tomado pela personagem vai nos deixando cada vez mais angustiados e desconfortáveis, construindo um clima tenso que fica simplesmente insuportável perto do final.

Claro que um dos maiores motivos para o filme provocar essas sensações é a espetacular interpretação de Natalie Portman, no que sem dúvida é o maior papel da sua carreira. Com uma entrega total e um domínio completo sobre o personagem, ela leva o espectador desde o primeiro minuto para o seu mundo angustiante e como ela vai sendo inserida ali é algo assustadoramente natural. Os surtos que vão acontecendo perto do final do filme não soam absurdos e sem sentido (já que ela começa como uma garota doce e educada) , tudo parece perfeitamente compreensível.

Para ajudar nesse efeito, Aronofsky novamente faz uso da câmera de mão, focando constantemente nas costas da personagem, como se estivessemos seguindo ela. Alias, pelo menos para mim, Darren Aronofsky é a grande concorrência de David Fincher no Oscar desse ano. É uma direção sensacional, utros momentos, como o que Nina começa a pular na ponta do pé no seu quarto, se mostram sacadas geniais, nesse em especial, o uso do slow motion faz os pulos – que numa dança se mostra algo delicado – parecem mortalmente pesados o que, aliado ao som de algo forte batendo no chão, nos deixa com a sensação de que tudo aquilo é extremamente doloroso para a personagem. E nem é preciso dizer que a construção de personagem é simplesmente magnífica, provando mais uma vez o talento de Aronofsky com esse aspecto de seus filmes.

Apesar de Portman brilhar, todo o elenco está afiadíssimo. Mila Kunis está ótima como Lily, a grande “ameaça” de Nina, encarnando com perfeição toda a noção de “Cisne Negro” do filme. Sem contar que a tão comentada cena dela com Portman é um belo deleite para os homens (hehe). Barbara Hershey causa certa repulsa com sua controladora e irritante mãe enquanto Vincent Cassel está um ótimo canastrão como o diretor da peça.

Em aspectos técnicos, é um privilégio ver esse filme no cinema. A fotografia está maravilhosa e os leves efeitos visuais usados nas alucinações de Nina são assustadores. A sequência da dança do cisne negro, já perto do final do filme, é provavelmente uma das cenas mais bonitas do cinema em 2010 (a transformação é espetacular). Mas nada (talvez nem mesmo Portman) é tão brilhante como o roteiro, que transforma um argumento aparentemente batido (de que o único obstáculo para o sucesso de Nina é a própria Nina) numa fantástica e perturbadora história repleta de metáforas, referências a outros filmes do cineasta e ao próprio Lago dos Cisnes e claro, um ótimo estudo psicológico do ponto que a mente do ser humano pode ser levada nas piores situações.

E Darren Aronofsky consegue, em mais um filme, atestar seu amor inabalável pela sétima arte, talvez tão obcecado quanto os personagens que cria. Enquanto não enlouquecer, só espero que essa obsessão pelo Cinema continue rendendo filmes como Cisne Negro, que, como poucos, ainda provoca uma avalanche de sentimentos, prende e destrói o espectador até o último segundo, para deixá-lo sem pensar em outra coisa por vários dias. Afinal, é esse tipo de coisa que torna o Cinema tão fascinante.

Nota: 10

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3 comentários sobre “Filmes: Cisne Negro (2010)

  1. Marcelo,

    Ótimo ver a review de Black Swan por aqui, afinal de contas, como bem te disse, estou na torcida para que esse filme seja premiado com o Oscar nesse domingo. Concordo com todos os elogios que tu fez a direção, atuação, roteiros e emoções/sensações que Black Swan conseguiu fazer esse ano como poucos outros filmes. Apesar de termos, como há muito tempo não via, uma categoria de filmes indicados para NINGUÉM botar defeito, ainda acho que o filme da bailarina Nina se destaca quando comparado aos outros, acho que o único que ainda consegue, na minha opinião, me deixar um pouco em dúvida sobre qual merece o prêmio de melhor filme é The King’s Speech. No entanto, refletindo aqui e com o que já discuti com alguns amigos acredito que The King’s Speech É o Colin Firth e Black Swan É Natalie Portman combinado um roteiro impecável.

    Ótima review, CEO. E parabéns pelo domínio técnico que tu tá tendo ao análisar os filmes!

  2. Não vi ainda esse filme, mas parece ser muito bom pelas coisas que ouço dele e pelo o que eu acabei de ler, realmente você me instigou a ve-lo, tambem com uma critica dessas e com essa nota 10, fica dificil não querer ver.

  3. Impecável! Melhor filme dos 13 que assisti até o momento este ano no cinema.
    Ah! Estou concorrendo a ingressar na Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos. Dê uma visitada no meu blog e se achar bacana (conteúdo e layout)… Quero vir a somar.
    Abraço.
    =]

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