Filmes: A Rede Social (2010)

 

Vencedor do Oscar
Melhor Roteiro Adaptado, Trilha Sonora e Montagem.

Gênero: Drama
Duração: 120min
Origem: EUA
Direção: David Fincher
Roteiro: Aaron Sorkin
Produção: Dana Brunetti, Ceán Chaffin, Michael De Luca, Scott Rudin

Em 1999, David Fincher lançou Clube da Luta, filme genial e subversivo que mostrava o que o homem estava virando: um ser fechado num mundo cínico em desenvolvimento descontrolado. Uma década se passou, Fincher virou um diretor consagrado e agora traz aos cinemas uma incontestável obra-prima, que entre outras coisas mostra que o homem agora está estabelecido em meio ao cinismo de um mundo em desenvolvimento descontrolado. Quanto ao auto-isolamento, surge disfarçado de popularidade, entre as páginas da Internet…

Quando saiu o anúncio de que David Fincher faria um filme sobre a história da criação do Facebook, eu duvidei. Soava uma ideia bizarra transformar isso em filme, não parecia coisa que um diretor como ele faria. Provavelmente porque até então não conhecia a história de Mark Zuckerberg, o gênio que, em um momento de raiva e frustração, acabou criando um dos sites mais poderosos da história da Internet. O tipo que Zuckerberg faz, cheio de peculiaridades, é o tipo de personagem que Fincher adora explorar, então no fim das contas, o que parecia estranho era na verdade um dos filmes mais promissores do ano.

Essa constatação já tem sua prova final apenas com a cena de abertura, onde Zuckerberg (Jesse Eisenberg, numa das melhores atuações de 2010) fala sem parar sobre uma série de assuntos, sem dar tempo de sua namorada, Erica Albright (Rooney Mara), sequer parar pra pensar e sem se dar conta de que está humilhando ela. A cena parece ter sido milimetricamente pensada: o ambiente, a música de fundo, as atuações, a direção, o dialogo fantástico e o final da cena, em que o protagonista leva um fora doloroso – e crucial para o resto do filme.

Alias, se eu começar a falar de todas as cenas que pareceram milimetricamente pensadas, pela perfeição com que são mostradas na tela, esse texto ficaria com um tamanho simplesmente impraticável, já que, praticamente todas as cenas do filme merecem ser discutidas. Mas vou tentar me ater ao principal, como por exemplo, o roteiro, melhor coisa de A Rede Social.

O roteiro de Aaron Sorkin já é forte candidato a uma indicação ao Oscar (sinceramente, por mim já estava com a estatueta garantida). Ácido, cheio de dialogos inteligentes e momentos geniais, era bem o que se esperava do criador de duas das séries mais brilhantes que a TV já produziu (The West Wing e Studio 60 On The Sunset Strip), que traziam todos esses elementos. Não existe momento desperdiçado, não existe fala sem algum motivo: tudo está no lugar certo, na hora certa, do jeito certo.

Tal como o roteiro, a direção de David Fincher é excepcional, mostra mais uma vez porque ele é um dos melhores diretores da nova geração, com um apuro técnico admirável. A sequência do campeonato de remo, que não tem uma única fala e apenas uma trilha incidental no mínimo curiosa – por destoar completamente do resto da trilha – é um daqueles momentos em que o cinema passa a exibir, por alguns momentos, uma obra de arte, de tão admirável que é a direção (além da bela fotografia).

Claro que roteiro e direção não adiantariam de nada se o elenco também não estivesse afinadíssimo. E todo mundo parece ter sido escolhido a dedo, mesmo os papéis menores, como Rooney Mara, que tem duas cenas o filme inteiro e mesmo assim consegue ser incrivelmente expressiva. Até Justin Timberlake surge com surpreendente competência no papel do criador do Napster. Arnie Hammer também faz um ótimo trabalho no papel dos gêmeos Tyler e Cameron Winklevoss.

Mas a dupla Jesse Eisenberg (de Zumbilândia) e Andrew Garfeld (que será o novo Homem-Aranha) rouba o filme como os amigos Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin. Eisenberg, claro, é o maior destaque, numa atuação hipnótica e perfeita, que ordena por vários prêmios. Garfeld acaba se saindo tão bem porque é muito bem-sucedido ao mostrar como a personalidade de Saverin é tão diferente do que é Zuckerberg. Ele não para um segundo, é expressivo, cada fala ou movimento ao seu redor tem uma reação sua, diferente do seu amigo, que se dispersa com o próprio mundo e tem um rosto que não expressa absolutamente nada durante todo o filme (ótima sacada de Eisenberg).

Eu podia parar para falar de Mark Zuckerberg aqui, mas sinceramente, isso renderia um post inteiro. É um personagem fascinante de se analisar e chega a ser engraçado ver como muitos saíram indignados com certas atitudes dele, que de fato, soam odiáveis. Mas isso não faz dele um vilão, nem alguém horrível. Vários dos seus atos para conseguir o sucesso da sua criação o faz apenas um homem moderno. Ele passou por cima de muita gente, aproveitou brechas, pegou ideias de outros para usa-las em seu próprio proveito. Hoje em dia, parece algo que vemos só em filme?

Fincher sabe explorar questões como essa do jeito eficiente que sempre faz e, além da óbvia ajuda do brilhante roteiro de Sorkin, também aproveita muito do trabalho excepcional feito na edição – que alterna entre passado e presente de modo ágil e sem fazer o espectador se perder, pelo contrário, muitas vezes evidencia ironias e ajuda a entender a história.

Mais do que a simples história do Facebook, A Rede Social é um triste, mas fascinante retrato do mundo moderno, onde o homem cria caso pelos mínimos problemas (a história da galinha, no filme) e o que importa é o sucesso, o dinheiro e a aceitação, acima de qualquer outra coisa. Não a toa, o final do filme, simplesmente brilhante, sintetiza toda a ideia, mostrando que nos dias de hoje, num mundo de redes sociais, as pessoas mais populares, são as mais solitárias…

Perfeito é uma palavra muito forte?

Nota: 10

P.S. (mais sobre o final) – SPOILERS PARA QUEM AINDA NÃO ASSISTIU:

Que genial terminar o filme ao som de “Baby, You’re a Rich Man” dos Beatles. Só ressalta a ironia, pelo refrão óbvio e a letra da música (Como você se sente sendo uma das pessoas bonitas?) no caso de Zuckerberg, qual é a sensação de ter criado a maior rede social do mundo e ter perdido todos os amigos reais por isso? E como Fincher não dá ponto sem nó, retorna a quem iniciou toda essa cadeia de acontecimentos: no fim, mesmo depois de tudo isso, Zuckerberg ainda lembra de Erica e, sabendo que nunca vai reconquista-la na vida real, tenta a sorte no mundo onde todo mundo pode ser seu amigo na base de um botão…

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3 comentários sobre “Filmes: A Rede Social (2010)

  1. Caralho, parabens Marcelo, você me deixou com muita vontade de ver esse filme depois desse post ¬¬ . Excelente texto, principalmente na ultima linha, foi ai que você deixou ansioso as pessoas que ainda não viram, verem o filme, como eu. Parabens mais uma vez otimo texto

  2. Gostei dos pontos que vc destacou sobre o filme. Eu nao achei ele taoo sensacional assim,talvez por ser atual demais pra mim, rs. Contudo, a relação sobre um cara que criou uma rede que conecta 500 milhoes de pessoa e ao mesmo tempo é uma pessoa solitária, atualizando constantemente a página da sua ex. num retrato super coincidente com o de mtas pessoas. Essa relação realmente me cativou.

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