Review: Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 (2010)

Gênero: Aventura – Fantasia
Duração: 147min
Origem: EUA/Reino Unido
Direção: David Yates
Roteiro: Steve Kloves
Produção: David Barron, David Heyman

“O evento de uma geração”. A frase que a Warner escolheu para divulgar Harry Potter e as Relíquias da Morte não poderia ser mais apropriada. Por mais que tantos fãs gostem de renegar os filmes, a realidade de que Harry Potter está chegando ao fim no cinema também, soa aterradora.

E para dar o devido respeito a esse momento tão importante para milhares de pessoas que acompanharam a saga do bruxo – e, claro, para ganhar uma graninha extra – a Warner dividiu o último livro e depois de muita espera, a primeira parte finalmente chegou, com uma fidelidade inédita a obra original, cenas de ação espetaculares e muita tensão.

Tal como nos livros, os filmes foram ficando cada vez mais sombrios e bem-feitos, com histórias mais envolventes, tramas intrincadas e vários mistérios. Hoje, os dois primeiros filmes, tal como os livros, soam um tanto bobos – só dou um mérito para Pedra Filosofal, afinal, foi o primeiro – e são praticamente esquecidos nesse filme quando, apenas segundos após o logo da Warner surgir todo estilizado na tela, ouvirmos a frase “Estamos em tempos sombrios, isso é inegável”. Relíquias da Morte já começa nos mergulhando numa atmosfera tensa e insegura, onde ninguém está a salvo e tudo pode acontecer com qualquer um, seja bruxo ou trouxa.

E desde a cena inicial, o diretor David Yates já deixa claro: mais do que os pedaços de alma de Voldemort ou as tais Relíquias do título, o filme é sobre Harry, Rony e Hermione, o trio que cresceu junto com milhares de fãs da saga e construiu laços de amizade que conseguem fazer a diferença nos momentos mais difíceis da vida de cada um. O filme começa mostrando cada um em seu lar, se preparando para a mais difícil jornada da vida deles e sacrificando tudo para isso (a cena de Hermione com os pais, inexistente no livro, é comovente).

Alias, se essa fosse a única cena inventada exclusivamente para o filme, estava tudo ótimo. Mas infelizmente não foi. Algo que eu admiro no último livro e que, ainda bem, foi mantido na adaptação – mesmo com a quebra feia que já vou citar – é como J.K. Rowling pega o trio e leva cada um ao seu limite como nunca tinha feito antes. O trio fica esgotado emocionalmente e sua amizade é posta a prova aqui, chegando ao ponto de quase acabar.

Para quebrar tanta tensão, Yates resolve incluir uma dança entre Harry e Hermione, depois de uma terrível briga de Rony com o protagonista. Todos os fãs se derreteram em elogios, mas eu odiei. Acho a cena bonita fora do contexto, é legal ver a amizade dos dois, tão natural e cheia de química, mas no filme soou um pedaço bobo e estranho – talvez foi a péssima atuação de Radcliffe, talvez a direção do Yates, mas o jeito que Harry puxa ela soou qualquer coisa menos amizade – e que quebra um dos maiores diferenciais do livro em relação ao resto da saga. Se eles sobrevivem a tudo isso sem dançar na história original, porque não pode ser igual no filme?

Mas essa é a única ressalva no roteiro. Escrito por Steve Kloves (que roteirizou todos os filmes da série com exceção do 5º), é talvez a melhor adaptação de um livro da saga, não soa uma transposição preguiçosa como foram os dois primeiros filmes, nem algo completamente diferente como o terceiro e o quarto, conseguindo ser fiel mesmo sem reproduzir página por página na tela. Isso, ao mesmo tempo que é uma alegria para os fãs, pode fazer muita gente que não leu os livros torcer o nariz pelo ritmo anormalmente arrastado do filme, diferente da locomotiva desgovernada de acontecimentos que é o resto da franquia (quase todos os filmes parecem se passar em um fim-de-semana em Hogwarts). Aqui há mais dialogos e cenas longas, principalmente em todo o segundo ato do filme, que se baseia no trio principal viajando por florestas.

Mas se o ritmo é vagaroso, as (poucas) cenas de ação compensam qualquer pessoa que possa ficar um pouco desapontada. Os dez primeiros minutos de filme, com a fuga de Harry da Rua dos Alfeneiros, protegido pelos Sete Potters (sete personagens que tomam um gole da Poção Polissuco para se transformarem em cópias idênticas do protagonista) é espetacular, com uma edição frenética e um ritmo acelerado – que contrasta completamente com o resto do filme – além de ótimos efeitos visuais.

Alias, no que diz respeito a parte técnica, o filme é excepcional. Além dos efeitos já citados, a fotografia aproveita ao máximo os lugares incríveis por onde o trio passa, mostrando paisagens belíssimas. Além disso, o filme todo tem uma atmosfera sombria e cores tristes e frias, ressaltando a tensão que permeia a história. A trilha sonora de Alexandre Desplat, meio diferente do que estamos acostumados a ouvir em Harry Potter, também não decepciona.

Esse filme era a maior chance do trio de protagonistas provar seu potencial diante das câmeras. Enquanto Emma Watson entrega sua melhor perfomance na série, com uma Hermione forte, mas sensível, tal como nos livros e Rupert Grint continua como o melhor entre os três, Daniel Radcliffe pelo jeito nunca vai mudar. Harry Potter continua meio mecânico e com falas decoradas.  Mesmo dividido em sete ele não foi lá muito convincente. Curiosamente, seus melhores momentos acontecem quando ele conversa aleatoriamente com Rony e Hermione e a química entre os três faz tudo soar muito natural.

Mesmo com ressalvas, não tem como deixar de elogiar o trabalho de David Yates na direção, agora já familiarizado com o mundo criado por Rowling, conseguiu traduzir para a película cenas que muitos fãs achavam impossíveis de se levar para a telona (a sequência com a bruxa Batilda Bagshot em Godric’s Hollow ou a já citada batalha nos céu dos Sete Potters, por exemplo), além de ter o diferencial de focar o seu filme nos personagens, diferente dos dois primeiros filmes de Chris Columbus, que se apoiava nos efeitos visuais ou o de Mike Newell (Cálice de Fogo), que prezou pelas cenas de ação e esqueceu de todo o resto.

Mas, apesar de todas essas qualidades, Relíquias da Morte – Parte 1 só serve mesmo como um aquecimento para o alucinante final, que, caso a fidelidade ao livro seja mantida, terá sequências de ação inacreditáveis. E nem estou falando da guerra final, travada dentro de Hogwarts, que promete ser épica. Ao final dessa primeira parte, fica aquele leve gosto amargo de ter visto um filme que, apesar de excelente, acaba bruscamente, e tem sua continuação só daqui a longos seis meses. Só espero que no fim, tudo valha a pena…

Nota: 8,5

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