FILMES: Bastardos Inglórios (2009)

Gênero: Ação
Duração: 135min
Origem: EUA
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Produção: Lawrence Bender, Quentin Tarantino

A ideia de Quentin Tarantino dirigindo um filme com a Segunda Guerra Mundial de cenário parecia surreal. Boa demais para ser verdade. Afinal, estamos falando do diretor que retrata a violência de um modo como poucos tem coragem de retratar. Portanto, um filme de guerra vindo dele não tinha como dar errado. E que bom que estavamos certos pensando assim. Bastardos Inglórios, projeto que o diretor adiou por tantos anos finalmente ganhou vida e para nossa felicidade, não apenas atende as expectativas como é um dos melhores filmes do ano e um dos melhores da carreira do cineasta.

Vingança. Uma constante nos filmes de Quentin Tarantino. Está presente desde Cães de Aluguel até os dois volumes de Kill Bill. E quem pensou que esse elemento tinha sido explorado ao máximo nos longas protagonizados por Uma Thurman (afinal, a grande trama é a Noiva na sua jornada para encontrar e matar Bill), vai ter uma agradável surpresa com Bastardos Inglórios.

Afinal, é a vingança judia contra os nazistas, uma possibilidade que, sinceramente, eu sempre parei pra pensar quando o assunto era Segunda Guerra Mundial. Aquela coisa: “e se os judeus resolvessem revidar?”. Pois bem, aqui é exatamente isso que acontece. Liderados pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt), os Bastardos – nome do grupo de judeus – tem uma única missão: matar nazistas. E do modo mais brutal possível.

Apesar da brutalidade e da violência explícita do filme, ele não é nem de longe o mais violento do diretor (o “honroso” titulo ainda fica com Kill Bill Vol.1), o que acaba sendo uma grande ironia, já que a história se passa na Segunda Guerra Mundial. Por isso, qual não foi minha surpresa ao não ver uma carnificina absurda explodindo no filme todo. Mas dá pra entender: o cineasta sempre mostrou a violência como algo banal, cotidiano. Na Segunda Guerra Mundial, ela de fato faz parte do cotidiano. Então, perde-se aquele impacto.

Pois bem, mais do qualquer outra coisa, o roteiro é sempre o melhor aspecto dos filmes de Tarantino. Aqui, não é diferente, cheio de elementos tipicamente “tarantinescos” (o que pode ser bom ou ruim): cenas longas, com dialogos que exaltam o amor do cineasta pela sétima arte, alias, não só dialogos, mas cenas, detalhes da trama (o Tenente Hicox é um ex-critico de cinema) e como se não bastasse, o sensacional clímax acontece dentro de um cinema.

Como eu disse, a presença de vários elementos caracteristicos de todos os filmes do Tarantino pode ser uma coisa boa ou ruim. Se as referências ao cinema, seja nos dialogos, seja em cenas especificas (como a referência a Carrie, a Estranha no clímax) é sempre bom, uma cena longa e cheia de dialogos vazios é o único problema do filme.

A sequência em questão é a que se passa num bar-subsolo, onde alguns Bastardos vão encontrar Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger). A cena é demasiadamente longa e começa num clima absurdamente tenso, onde ficamos esperando algo acontecer a cada segundo. Mas depois, vai demorando para passar e começam a vir uma série de dialogos vazios. Para compensar, o final da sequência é espetacular.

Apesar de parecer piada reclamar de dialogos desnecessários num filme dirigido pelo mesmo cara que fez Pulp Fiction, em que dois gângsteres passam 5 minutos discutindo as diferentes formas de se falar Quarterão e Big Mac ao redor do mundo (e é um dos melhores filmes da história do cinema), temos que admitir que, se Tarantino não tem limites – e não tem mesmo – o espectador tem. Acaba sendo a cena mais cansativa do filme e seu único problema, o que passa longe de afetar o resultado final.

Tecnicamente, o filme é impecável. Tem uma belíssima fotografia e uma direção de arte excepcional. Outras duas coisas que são boas de costume nos filmes do diretor, a trilha sonora e a edição, também estão sensacionais aqui. Em especial a trilha sonora, que vai desde Ennio Morricone até David Bowie, além de contar com a belíssima “The Green Leaves of Summer”, de Nick Perito, que abre o longa e ficou na minha cabeça por vários dias. A direção de Quentin Tarantino é, de longe, a melhor da carreira do diretor. Esse pode até não ser seu melhor filme, mas é sem dúvida o mais bem dirigido. Um trabalho de mestre.

Depois de ressuscitar as carreiras de John Travolta, David Carradine e Kurt Russell (ok, esse último nem tanto) e revelar Samuel L. Jackson ao mundo, Tarantino acabou de alavancar a carreira de mais um ator com Bastardos Inglórios. O austríaco Christoph Waltz, que até então era um mero desconhecido, rouba completamente o filme. É uma atuação perfeita como o Coronel Hans Landa, uma das melhores, senão a melhor do ano até então.

Ajudado por Tarantino, que mantém um clima tenso em diversas cenas do filme, Waltz deixa todas as cenas em que Landa aparece com uma tensão insuportável. Vide a (excelente) cena inicial, composta apenas de dialogos, mas que nos deixa terrivelmente angustiados, esperando algo horrível acontecer, ou a cena em que ele e Shoshanna comem strudel (outro momento icônico do filme). Suas expressões, seu jeito de falar, tudo nos leva a crer que ele já está sabendo de todos os segredos que a pessoa esconde e está pronto pra agir. Faz um tipo diferente de nazista que estamos acostumados a ver no cinema. E é brilhante.

O resto do elenco também faz um bom trabalho, mas com exceção do grande astro do filme, nada tão espetacular. Brad Pitt está incrivelmente divertido como o Ten.Aldo Raine, líder dos Bastardos. Seu sotaque sulista forçado rende alguns dos momentos mais hilários do filme. Eli Roth como ator é um ótimo… bom, é um ótimo sei-lá-o-que, o fato é que ele está ruim, mas aparece pouco e considerando que ele é um Bastardo que mata nazistas com um taco de beisebol, fica até difícil reclamar de atuação… As mulheres, Diane Kruger e Melanie Laurent também fazem um bom trabalho. A segunda se saindo bem melhor que a primeira, já que esta só surge na metade do filme.

Agora, é ótimo ver como Tarantino retrata Adolf Hitler e Joseph Goebbels. Propositalmente caricatos (o führer aparece gritando histericamente na sua primeira cena), eles estão bizarros e por isso, excelentes. Daniel Bruhl (de 2 Dias em Paris) também se sai muito bem como Fredrick Zoller, chegando a fazer o espectador até sentir pena do personagem pelas suas atitudes. Até Mike Myers faz uma aparição, que pode passar despercebida pelos distraídos, por causa de seu visual diferente no filme.

Enfim, Bastardos Inglórios é um filme tipicamente “tarantinesco”, mas ao mesmo tempo, é diferente de todos os outros trabalhos do cineasta. Todas as caracteristicas marcantes estão lá, mas de um jeito nunca antes visto. É um filme único e completamente original. O trabalho mais maduro do homem que mudou o cinema nos anos 90. Como Cel. Hans Landa diz… Bastardos Inglórios “é um bingo!” na carreira de Tarantino… ou algo parecido.

Nota: 9,5

Marcelo Silva

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3 comentários sobre “FILMES: Bastardos Inglórios (2009)

  1. Vi o filme, li o roteiro original, e está tudo bem claro no post do nosso amigo,bem colocado por sinal esse filme é gênial, o Tarantino é gênial! Minha nota seria 10! Ou melhor! 1 e vários zeros hehe!

  2. Me arrependi de ter visto esse filme. Esperava muito mais de um grande diretor. Um filme classificado erradamente como “ação e comédia” com um roteiro fraquíssimo, que tem recebido muitas críticas. Tarantino erra muito feio nesse filme. Bastardos Inglórios poderia receber o Oscar de pior filme de 2009. Isso seria mais do que justo para uma grande produção dessas e um grande diretor que errou feio dessa vez

  3. Pingback: Filme da Semana « Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos

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