FILMES: Inimigos Públicos (2009)

Gênero: Drama – Policial
Duração: 140 min
Origem: EUA
Direção: Michael Mann
Roteiro: Michael Mann, Ann Biderman
Produção: Michael Mann, Kevin Misher

Diretor de ótimos filmes com cenas antológicas (nem todas envolvendo tiros, vide a inesquecível conversa no café em Fogo Contra Fogo), Michael Mann faz o que sabe fazer melhor em Inimigos Públicos: há o confronto de lados opostos da lei representado por dois homens – aqui, Johnny Depp e Christian Bale – tiroteios e perseguições sensacionais, uma direção excepcional e atuações inspiradas do elenco. Apesar de não ter superado minhas expectativas – como eu esperava que fizesse – não tenho o que reclamar: é um grande filme.

Baseado no livro “Public Enemies: America’s Greatest Crime Wave and the Birth of FBI”, de Brian Burrough, Inimigos Públicos conta a história real de John Dillinger (Johnny Depp) ladrão que pouco a pouco alcançou o status de celebridade ao roubar bancos com a sua gangue durante a Grande Depressão, mais precisamente em 1933.A afeição junto ao público veio do fato do ladrão se recusar a roubar o dinheiro dos clientes presentes nos estabelecimentos durante os assaltos, dando a ideia de que ele só estava tirando dos bancos o que os bancos haviam tirado deles, isso além de suas audaciosas fugas e seu charme, que o ajuda a conquistar Billie Frechette (a vencedora do Oscar, Marion Cotillard).Com a fama do criminoso, J. Edgar Hoover (Billy Crudup de Watchmen) resolve elevar a moral de seu Bureau de Investigações organizando uma caça a Dillinger, transformando-o no Inimigo Público Número 1 dos EUA e colocando o eficiente agente Melvin Purvis (Christian Bale) atrás do ladrão.

No papel principal – o do ladrão, hehe – temos Johnny Depp, um cara que tem tantos fãs quanto detratores. Há quem adore a versatilidade dele, atuando em todo tipo de papel, desde os mais bizarros (sua versão de Willy Wonka), passando pelos cômicos (Jack Sparrow, de Piratas do Caribe, seu mais famoso personagem) até os mais… hã… normais (em filmes como Chocolate ou Em Busca da Terra do Nunca). Já outros acham que o cara só se garante com muita maquiagem na cara e um papel estranho para interpretar – sim, já ouvi isso. Vejam só, aqui ele tem sua chance de provar o contrário.

Depp é, de longe, o melhor em cena no filme. Sem grandes exageros – meio comuns dos seus personagens – ele interpreta um personagem que, apesar do jeito meio petulante, sempre soa real, humano e que de certo modo, consegue nos cativar, pois com seu jeito indiferente a [quase] tudo, o menor sinal de uma expressão diferente já prende nossa atenção – a cena em que ele fica desesperado no carro, mais para o final, por exemplo – isso sem contar seu sorrisinho na cena em que sua foto aparece na tela de cinema como o Inimigo Público Número 1 ou quando ele está vendo um filme com Clark Gable. Quando ele sorri, principalmente nesse segundo momento, é difícil não esboçar um sorriso com ele também.

O resto do elenco faz um bom trabalho, com destaque para Marion Cotillard, que interpreta Billie Frechette, o grande amor da vida de John Dillinger. A bela atriz tem uma excelente química com Johnny Depp, conseguindo fazer com que nos importemos com o casal – que se forma absurdamente rápido, talvez pelo tão famoso charme que Dillinger tinha – e tem seus grandes momentos, como na pesada cena de tortura ou na ótima cena final, em especial nos últimos minutos do filme, onde o diretor ainda faz questão de deixar a câmera no rosto dela por um bom tempo até cortar para os créditos finais, causando um efeito imediato em nós, espectadores.

Christian Bale não faz nada memorável com seu Melvin Purvis, talvez por não ser um personagem tão interessante quanto Dillinger – E não é porque o outro é o ladrão, papel que todo mundo acha “mais interessante”. Pegue outro filme de Mann, Fogo Contra Fogo e temos dois personagens de lados opostos da lei, ambos muito interessantes – e ainda temos participações de Billy Crudup como J. Edgar Hoover (que parece sentir uma certa… huum… atração, por Purvis. É bom lembrar que existiam boatos que diziam que Hoover se vestia de mulher em algumas ocasiões), uma ponta de Channing Tatum como Pretty Boy Floyd (no começo do filme, a cena em si é muito boa) e até Emilie de Ravin – a Claire de Lost – faz uma aparição relâmpago.

Em aspectos técnicos – como já era de se esperar de algo com o nome de Michael Mann – o filme é sensacional. A trilha sonora de Elliot Goldenthal é ótima, entrando sempre de um modo que pareça ressaltar a importância daqueles personagens ou daquele momento mostrado na tela. Ao mesmo tempo, faz o filme ter um aspecto mais antigo, com aquele ar da época em que a história se passa. E falando em “ar da época”, o design de produção do filme é perfeito, uma recriação dos anos 30 feita nos minimos detalhes e aí também pode-se incluir a direção de arte e o figurino. Um trabalho impecável, que de fato consegue nos inserir naquela época.

Já não é de hoje que sabemos do talento que Mann tem para criar grandes cenas. Com a ajuda do diretor de fotografia Dante Spinotti e das câmeras digitais – tecnologia que Mann usa desde Colateral, de 2004 – o diretor traz sequências espetaculares em Inimigos Públicos. Os tiroteios prendem a atenção fácil, repletos de tensão até o último minuto – o design de som de cenas como essas é impecável, muita gente automaticamente olhava para os lados com o barulho dos tiros vindo de todo canto, tamanho o realismo – e cenas como a perseguição a noite no meio da floresta nos deixam presos a poltrona do cinema, ansiosos para ver o que vai acontecer.

Mas não é só de cenas de ação que vive o filme. Temos cenas brilhantes, como o primeiro encontro de Dillinger com Purvis – onde os dois são quase sempre mostrados pelas grades da cela – o clímax, maravilhosamente bem-feito (o slow-motion aqui é usado na hora certa e de maneira brilhante…viu Sr.Snyder?) e os momentos que antecedem o final, que vemos o ladrão no cinema, numa cena já citada, assistindo um filme de gângster com Clark Gable. Mas uma das melhores cenas do filme inteiro sem dúvida é a visita que Dillinger faz ao departamento de polícia. No primeiro momento, chegamos a ficar indignados e até tensos, depois fica difícil não admirar o ladrão. É… admirar… o ladrão. Só no cinema mesmo…

Num ano com poucos filmes realmente excelentes até então, Inimigos Públicos tem destaque e é desde já, um dos melhores do ano. Mas vindo de Michael Mann, fica até difícil esperar algo que seja menos que bom…

Marcelo Silva

Nota: 9

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