FILMES: Watchmen – O Filme (2009)

Gênero: Ação – Drama
Duração: 163 min
Origem: EUA
Direção: Zack Snyder
Roteiro: David Hayter, Alex Tse
Produção: Lawrence Gordon, Deborah Snyder, Lloyd Levin, Herb Gains

Enfim, temos o primeiro comentário de um filme lançado oficialmente em 2009. E começamos bem, com a aguardadissima adaptação da obra-prima de Alan Moore e Dave Gibbons, Watchmen. Vinte anos de espera, muitos boatos, brigas judiciais, troca de diretores e no fim, o filme acabou caindo nas mãos de Zack Snyder, fã declarado de HQs e que já tinha feito uma adaptação antes, no caso, se tratava de 300, baseado na obra de Frank Miller. Com isso, ficam as perguntas: será que o filme foi lançado na hora certa? Será que o diretor precisava de mais experiência? E claro, a pergunta que todo fã quer saber a resposta: será que o filme é fiel a HQ? Felizmente, posso responder que “sim” na última pergunta, já as outras duas… veremos.

Baseado na que é considerada a obra máxima das HQs, Watchmen se passa em 1985, num mundo onde os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Richard Nixon já foi eleito presidente cinco vezes. Toda a tensão e paranóia da Guerra Fria está presente, já que uma guerra nuclear com a União Soviética parece cada vez mais certa. Nesse mundo, os super-heróis são algo normal, mas se encontram aposentados no momento, vivendo como pessoas comuns, mas sem nunca esquecer os velhos tempos. Alguns vivem da lembrança de quando eram heróis, outros lucram com isso e poucos continuam na ativa, com autorização do governo. Um desses, no caso, o Comediante (Jeffrey Dean Morgan da série Grey’s Anatomy) é misteriosamente morto e o perigoso Rorschach (Jackie Earle Haley, Pecados Íntimos) investiga o acontecimento, suspeitando que exista uma conspiração para eliminar os super-heróis do passado.

A fidelidade quase-cega com que Zack Snyder tratou a HQ é uma das melhores coisas do filme… e ao mesmo tempo, uma das mais arriscadas. Afinal, o público não está acostumado com um filme sobre super-heróis desse jeito. Filmes assim não tem lutas incríveis, um herói sensacional, explosões a todo momento e cenas de ação de tirar o fôlego? Pois bem, Watchmen não é assim. O filme tem vários dialogos, uma história extremamente complexa (que muitos consideravam infilmável), heróis verossímeis e cheios de problemas psicológicos e várias questões éticas, morais, politicas, culturais e claro, filosóficas. Isso pode fazer muita gente não apreciar o filme, achá-lo cansativo (não digo isso por mim, várias pessoas vem dizendo isso), mas depende de cada um, da mente de cada um. Há quem vai achar fantástico, há quem vai odiar.

O momento para lançar a adaptação não podia ser melhor. Praticamente todos os heróis mais conhecidos do público já ganharam suas versões no cinema, os que ainda não apareceram já tem data marcada pra chegar (como o Capitão América e o Lanterna Verde) e o último filme baseado numa HQ mostrava um homem-morcego e outro pintado como um palhaço em meio a um mundo realista e muito perigoso. Depois de tanto tempo, o cinema estava pronto para receber Watchmen. O público, como dito no parágrafo anterior, talvez estranhe, mas é um fato que já vimos filmes de super-heróis o bastante para vermos a desmistificação destes. Tudo bem, o cinema estava pronto. Mas e o “visionário” (esse marketing…) diretor?

Zack Snyder, ainda bem, conseguiu fazer um bom trabalho, mesmo que alguns defeitos dificeis de ignorar na sua direção continuem. Para começar, o que ele tem com o slow motion, afinal? O efeito é usado em diversas cenas do filme, mesmo que seja em uma escala bem menor que a de seu longa anterior, 300, que por pouco não virou o primeiro filme completamente em câmera lenta da história. Em alguns momentos a direção soa um pouco imatura, mas no geral, é um trabalho excepcional, que não chega a decepcionar.

Visualmente, o filme é extraordinário, o que torna indispensável vê-lo no cinema. Pequenos detalhes como as Torres Gêmeas ou cartazes de Nixon espalhados pela cidade dão o aspecto do filme não se passar no nosso tempo. E o tom mais escuro e sombrio ajuda a criar o clima de desesperança e melancolia no qual somos imediatamente inseridos (cheguei a me sentir um pouco incomodado dado certo momento). A direção de arte é excelente, assim como a fotografia. Muitos planos de Dave Gibbons na HQ foram reproduzidos perfeitamente no longa. Isso não era muito difícil, considerando que o ilustrador aplica um estilo cinematográfico em Watchmen (HQ).

Claro que há alguns problemas técnicos. Além do já citado slow motion, a trilha sonora é um tiro no pé. São todas excelentes músicas, mas a maioria delas parecem estar em momentos errados do filme. “The Sound of Silence” soa equivocado no enterro do Comediante, mas pra compensar, temos “Ride of the Valkyries”  quando Dr.Manhattan aparece imponente na Guerra do Vietnã, numa referência bacanissima a Apocalypse Now. Quanto a tão comentada cena ao som de “Hallelujah”… bem, pra mim está certo e errado. Certo, porque foi feita mais como um alivio cômico e consegue cumprir seu papel. Errado, porque… é dificil não sentir uma pontinha de constrangimento. Mas isso não importa quando se lembramos da música que embalou o maior acerto do longa: os créditos iniciais. “The Times They Are A-Changin’ “, de Bob Dylan foi uma escolha absolutamente genial para os belissimos e estilizados créditos, a melhor ideia do filme, de longe.

Os efeitos visuais são sensacionais, incluindo o trabalho feito com Dr. Manhattan, do qual falarei mais pra frente. A edição é precisa, respeitando a estrutura não-linear da obra, mas pode incomodar alguns, pois em um determinado momento, saímos da ação e de cenas rápidas para os devaneios do Dr.Manhattan em Marte, o que nos quadrinhos é algo normal, acaba sendo uma quebra de ritmo no filme, o que incomoda muita gente. E vale avisar: se for possível, assista numa sala com a melhor qualidade de som possível. Os efeitos sonoros são espetaculares – sentimos o cinema tremer em algumas cenas.

Quanto as atuações, não há dúvidas: o melhor em cena, de longe, é Jackie Earle Haley. É basicamente o Rorschach que todo fã sonhou ver. A voz rouca – que graças a Deus não vem sendo comparada com a de Batman –  os trejeitos, até o jeito de andar, tudo exatamente como o personagem mais querido dos fãs. Deus sabe a revolta que ia acontecer se ele não desse certo no filme. Jeffrey Dean Morgan também fez um ótimo trabalho, se mostrando uma boa escolha para o Comediante, dando intensidade e um aspecto bruto ao personagem. Billy Crudup e Patrick Wilson também se saem bem como Dr. Manhattan e Coruja.

O primeiro, com a peculiaridade de ser digital (alguém aí iria querer ver um cara pelado pintado de azul na tela?) num trabalho fantástico de efeitos visuais, durante todo o filme, o único super-herói, “realmente” super, é retratado com um brilho intenso o envolvendo, algo quase… celestial. Uma ótima ideia para um super-herói considerado um deus. A voz suave e inflexível só ajudam a reforçar isso. Já Wilson não decepciona, mas fica aquela sensação de que ele poderia fazer mais como o segundo Coruja. Por fim, temos Matthew Goode, Malin Akerman e Carla Gugino, como Ozymandias e a segunda e primeira Espectral, respectivamente. O primeiro faz o que pode com seu personagem, que com tantas histórias, acaba um pouco mal-desenvolvido no filme – chamam ele de “homem mais inteligente do mundo”, mas não parece ter uma boa razão pra isso – sendo mais aproveitado apenas no final. Carla Gugino também não aparece muito, mas – a deliciosa – Malin Akerman acaba sendo a pior em cena. Não demonstra emoção com absolutamente nada (influência do marido azul?), mesmo quando uma terrível revelação sobre o seu passado é feita, sua reação soa forçada.

Os roteiristas tiveram a ingrata missão de colocar os 12 complicados volumes de Watchmen em um filme de 2h40 e conseguem fazer um ótimo trabalho, deixando toda a essência da HQ e tudo o que realmente é importante ali. Mas e o tão falado final, que iria ser modificado? Bem, o final é mesmo diferente da HQ. Mas é tão genial – talvez até mais – quanto o da HQ e bem mais fácil de aceitar num filme do que o final da obra original, que poderia ser desastroso na telona.

Enfim, Watchmen, tal como a HQ, não é um filme fácil. Mas nos quadrinhos, claro, é mais fácil aceitar pessoas mascaradas, com uniformes coloridos – ou não – batendo em bandidos. Por isso essa adaptação foi algo arriscado. Muita gente não vai conseguir digerir certas coisas, vão se incomodar com algumas cenas, mas é como diz o ditado: não se pode agradar a todos. Algo que fica ainda mais óbvio se tratando da adaptação da maior história em quadrinhos de todos os tempos…

Nota: 9/10

Por Marcelo Silva

Anúncios

8 comentários sobre “FILMES: Watchmen – O Filme (2009)

  1. Estou ficando muito ansioso com relação ao filme, embora eu nunca tenha lido os quadrinhos e saiba muito pouco sobre a trama, talvez possa dificultar um pouco, mas o resultado deve sim ser positivo.

    Até mais!

  2. Não li a HQ inteira também. Li 5 dos 12 volumes e só aí, já dá pra ver o carinho com que Snyder tratou a obra original. Ainda bem. E recomendo que leia ao menos a sinopse do filme, senão fica um pouquinho mais difícil de acompanhar.
    Pelo menos pra mim, o saldo foi positivo (como você pode ver,hehe)

  3. Adorei sua crítica, apesar de não ter visto o filme ainda.

    Dos meus amigos q assistiram, reclamaram das mesmas coisas q vc e elogiaram as mesmas tb.

    Não vejo a hora de assistir a esse filme !!

  4. É de lembrar que um dos roteiristas do filme é David Hayter, que é quem dá a voz já famosa do personagem “Solid Snake” em Metal Gear Solid.

  5. Vergonhosamente, sempre ouvi falar e nunca li as HQ’s… Agora vou pegar digitalizada para em breve, quando tiver grana, comprá-las… Isso significa que eu AMEI o filme e não vejo a hora para ver a HQ que com certeza é melhor, rs… Excelente texto, mesmo…

  6. FM, obrigado pelos elogios e de fato, estou lendo opinões por aí e parece que foram unânimes em algumas coisas…

    Fernando, não sabia dessa sobre o David Hayter! Ótima observação!

    O Cara da Locadora, estou economizando para aquela belissima edição definitiva. E não li toda a HQ, mas acredito que mesmo se tivesse lido, acharia fantástico, afinal, tem MUITO da HQ ali. O mais surpreendente de tudo é que venho lendo opiniões de fãs de longa data da obra de Moore e… eles estão adorando!

  7. Acabei de ver o filme…

    Bom.. Achei q a essência mesmo da história, infelizmente, não foi para as telonas. Assisti ao filme sentindo falta de algo. Talvez do caos sempre presente na HQ, ou nas relações e ligações de personagens dispares que nos davam um leque de interpretações para as cenas.

    O filme é ótimo, mas não alcança a grandiosidade da HQ.

  8. Pingback: Retrospectiva 2009: Parte 4 « Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s